CLAUDIO CARVALHO PARA JORNAL A TARDE.
DIREITO AO PAI:
PSICANÁLISE E JUSTIÇA
A manhã de sol no
domingo era esperada para passear na Ponta do Humaitá com minha
filha Vic, às margens da Baía de Todos os Santos. Em um desses
passeios, sentados nas pedras do quebra-mar, fui interpelado por Vic
sobre o que ela seria quando crescesse. Surpreso com a pergunta,
respondi, depois de pensar um pouco, que o que ela escolhesse para
fazer seria bem feito. Ela retrucou, dizendo que eu falava aquilo
porque era seu pai. Não sei se a conversa foi replicada com sua mãe,
mas, certamente, e nos melhores dos casos, o diálogo seria
diferente.
Explico: a função de um
pai, dentre outras, é a de sustentar um discurso sobre a criança
diferente da fala materna a etiquetar o corpo do pequeno sujeito
quando, nos primeiros cuidados, atribui, através de um empréstimo
de sentido, palavras às manifestações de choro e desconforto do
bebê. Essas antecipações feitas pela mãe são cruciais para a
estruturação psíquica do infans (aquele que não fala), mas devem
ser relativizadas por um inter-dito paterno, como fiador terceiro
nessa economia psíquica a evitar uma captura imaginária da criança
nas malhas do discurso materno. Conviver com a diferença entre pai e
mãe na infância é fundamental para a subjetivação. E quando os
pais se separam?
Uma separação nunca é
indolor, mas pode ser um momento rico para o confronto com a
diferença entre pai e mãe. Neste sentido, cabe aos operadores do
Direito de Família não se demitirem de suas funções quando
demandados. Esse trabalho ainda deixa a desejar pela omissão em
alguns casos por parte dos entes públicos, pela lentidão da justiça
– ao negligenciar a assimetria existente entre o tempo da justiça
e o tempo da infância – e por uma cultura arraigada que, muitas
vezes, privilegia a guarda e o poder materno em detrimento da
convivência entre pai e filho(a).
Aos operadores do direito
fica aqui uma contribuição da psicanálise; para que o diálogo
entre pai e filho(a) não seja substituído por um escrito amarelado,
à deriva numa garrafa no mar da Baía de Todos os Santos, numa
esperada manhã ensolarada de domingo.
Claudio Carvalho –
Psicanalista, analista-membro e vice-presidente da Associação de
Psicanálise da Bahia – APBa, articulista-colaborador de A Tarde,
autor do livro O Educador e o Psicanalista: Um Diálogo do Cotidiano.
Texto publicado em A
tarde de 10 de agosto de 2013.
Comentários