Um pouco de mitologia

Mitologia é uma de minhas paixões, preciosa e antiga, um conhecimento que comecei a adquirir lá pelos meus 16 anos. São tantas versões que fico até com receio de ler algo novo e diferir da que conheço: a primeira versão, à qual fui apresentada e envolvida.

Os deuses da mitologia grega são tão humanos que os adotamos como pessoas próximas, tão sujeitos ao nosso julgamento como parentes que fazem parte da nossa história. Assim tomamos partido de uns, odiamos e maldizemos outros.

Nesta semana, tive oportunidade de ressuscitar uma questão antiga e acho que não é só minha: Perséfone realmente se apaixonou por Hades? Eu sempre defendi que sim. Um livro, A Deusa Interior de Roger J. Woolger e Jennifer Barker Woolger, caiu em minhas mãos e eu descobri que a deusa que predomina em mim é Perséfone. Logo, poderia falar dela de cadeira.

De acordo com meu parecer, não há como não se apaixonar por Hades. Ele é misterioso e interessante, dono de um reino rico em símbolos espetaculares. Este reino de Hades é, nada mais, nada menos, que o inconsciente... ou seja, o mundo dos mortos pra uns. Lá, guarda-se o que muitos gostariam que estivesse morto... mas o que se defende da morte afinal? A TRANSFORMAÇÃO; o inconsciente e seus significantes na verdade são a chave para transformação do ser.

Hades assusta muitos porque nem todos têm coragem de descer aonde vivem os mortos, ao mundo do inconsciente e resgatar a parte dolorida da história, pisar no escuro, ultrapassar o véu, não saber o que pode encontrar. Desbravar o inconsciente é como morrer, transformar, nascer pra outro mundo e, até mesmo, libertar-se. Hades é rei nesse mundo... como não se apaixonar? Talvez Perséfone nunca se apaixonaria por alguém cujo habitat é tão obscuro e, por não ser tão acessível, realmente é sujeito a julgamentos alheios que o transformem em um monstro desconhecido. Ela precisou ser raptada e conviver de perto para entender e apreciar a beleza de Hades.

Talvez o papel do psicanalista seja este... passear entre os dois mundos (consciente e inconsciente), como Perséfone.

Comentários

Anônimo disse…
Cada aspecto arquetípico presente nos mitos (gregos ou outros) tem múltiplas interpretações. A identidade que parece ser gerada entre algum aspecto de personalidade nosso é uma metáfora para nos compreendermos melhor dentro dos limites de nossa linguagem (nossa comunicação), que é extremamente precária.
Recomendo a leitura de Joseph Campbel ou que se assista o documentário O Poder dos Mitos, com ele próprio.

Fabiano
Anônimo disse…
Oi Leila! Recebi seu email e passei aqui pra conferir.
Adorei seu texto! Tratando-se de um blog sobre psicanálise, é um excelente começo, da Mitologia,Hades e o inconsciente.
Lendo o seu texto, pensei ainda, no encanto (no charme) dos psicanalistas. Conforme a sua associação, são manifestações de Perséfone, trazem em si essa insinuante habilidade de ir e vir nesse mundo desconhecido, prontos a nos seduzir e nos conduzir por esse misterioso caminho.
Parabéns! Beijos!

Ana Cabral
Anônimo disse…
Leila,
Tem que colocar esse blog pra bombar! rsss
O mesmo post até hoje?!
Olha só! Estava lendo o seu perfil e os seus filmes prediletos. NOSSA! Escrevi isso e me lembrei que esqueci de dar os filmes pro Bruno te entregar... Prometo na próxima segunda!
Mas, então, sobre seus filmes prediletos. Você já viu a Encantadora de Baleias? Se não viu, veja. Lindo demais da conta!
Beijos!

Ana Cabral
Téti disse…
Muito bom seu texto, Leila. Adorei. Talvez por eu ter muito de Perséfone, sou encantada e atraída pelo Hades e pelos homens que revelam o arquétipo dele - transcendente, misterioso, espiritual... E por quê será que ele se apaixonou por ela a ponto de sair de seu mundo para ir rapta-la? Talvez porque, ao contrário dela, que transita entre os dois mundos (dos vivos e dos mortos, da luz e da sombra), ele nunca sai de lá?

Postagens mais visitadas deste blog

Desejo, sujeito da psicanálise e ser-humano

IN TREATMENTE (EM TERAPIA)

Desejo e sublimação