Desejo e sublimação

O texto que postei na semana passada revela a inquietação inicial de um trabalho entitulado: "Estruturação do sujeito, psicose e diálogos proibidos". Nele revelei meus questionamentos sobre uma visão que considero estreita e ao mesmo tempo fértil acerca da noção de estruturação do sujeito, trazida pelo pensamento psicanalítico. Questioná-la não significa descartá-la e, o que fiz, foi revelar um diálogo silencioso, porém inquietante, entre o saber psicanalítico e sabedoria budista. Portanto, o que vocês poderão acompanhar ao longo das próximas semanas é a continuidade desse trabalho, constituído pela dialética entre a pulsão de vida e a pulsão de morte, inerente ao sujeito. Divirtam-se!

Como eu ia dizendo em relação ao desejo, "seria possível ultrapassá-lo?"
Em 1960, ao tratar da ética do sujeito, conforme registrado no Seminário 7, "A ética da psicanálise", Lacan partiu das considerações de Aristóteles, Sade e Freud sobre o tema para chamar a atenção sobre a importância do conceito de "amor" no Ocidente, cunhado a partir da idéia do "amor cortês" dos trovadores do Sul da França do século XI, troveiros na França do Norte e Minnessänger na Alemanha. Trata-se de um "ideal de amor". Para Lacan "o amor cortês é uma forma exemplar, um paradigma da sublimação". Entretanto, Lacan propunha que:

"nem toda sublimação é possível no indivíduo (...). Alguma coisa não pode ser sublimada, há uma exigência libidinal, a uma exigência de certa dose, de uma certa taxa de satisfação direta, sem o que resultam danos e perturbações graves".

Depois, ao tratar do amor cortês dos trovadores, cuja leitura possível é a da "inacessibilidade do objeto", bem como do caminho para a sublimação, Lacan mostrava que, por meio de uma apresentação de caráter eminentemente enigmático,

"(...) chegou-se até a fazer sua aproximação com a erótica hindu ou tibetana, que esta última parece ter sido codificada de maneira mais precisa e, constituir uma ascese de disciplina do prazer, em que uma espécie de substância vivenciada pode surgir para o sujeito. É somente por extrapolação que se supõe que o que quer que seja que se pareça com ela tenha sido efetivamente praticado pelos trovadores. Pessoalmente, não acredito em nada disso. E sem chegar a supor a identidade entre as práticas extraídas de áreas culturais diferentes, acredito que a influência dessa poesia para nós foi decisiva".

Fica evidente que Lacan não acredita na possibilidade de supressão plena do desejo, em suas múltiplas expressões. Por outro lado, Lacan reconhece algo como "ascese da disciplina do prazer" tibetana, mas prefere descartar sua influência sobre a noção de sublimação (ocidental). Nesse momento, ao recolher mais argumentos para a delimitação de um campo ético psicanalítico ele acaba por restringir seu olhar para um sujeito cunhado a partir de referências ocidentais. Ora, não seria isso contraditório com uma noção de sujeito que se pretende universal?

No campo psicanalítico, ele não foi o primeiro a fazer isso. Algumas décadas antes, Freud deixava isso escancarado em "O Mal-estar da civilização"...

Semana que vem eu continuo a estória...

Comentários

Anônimo disse…
Oh não... semana que vem não... semana que vem esta' longe.... continue, continue!!!

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