Fantasia
Essa semana, eu encontrei um aconchego, um abrigo nas minhas memórias da infância. Lembrei de uma crônica da Denise Fraga para a revista Crescer (editora Globo) em que ela fala que só quem chupou bico na infância pode entender o prazer isso. Eu não lembro da delícia de um bico, mas outras lembranças da infância me trazem um prazer inigualável, a fantasia das minhas brincadeiras... Montava uma casa inteira com livros e vasilhas de cozinha que serviam de piscina. Os personagens eram bem diversificados e faziam parte de uma estória criada pela minha imaginação. Eu passava o dia dentro de um contexto totalmente alheio ao mundo real ao meu redor. Tive uma infância maravilhosa, com muitos amigos e brincadeiras de rua, coisa que está se perdendo na sociedade atual. A violência restringe muito a liberdade das crianças, mas aquele meu mundo particular era inigualável, tinha um sabor diferente.
Outro dia minha mãe comentou de forma nostálgica que eu esquecia do mundo brincando com aquelas miniaturas, e junto com a nostalgia dela veio a minha. Tenho essa lembrança como um aconchego, o mesmo aconchego que senti ao assistir Anarquista Graças a Deus (essa semana). História baseada em um livro que li lá pelos meus treze anos, que se materializou em vídeo, e eu me senti abraçada pela doçura do meu passado.
O tempo passou e agora o enredo é outro, o passado não cabe, mas o encanto da lembrança é divino e no faz sentir vivos diante de uma história. Lembro das histórias da juventude do meu pai. Isso animou os natais da nossa casa e dá uma certa identidade, uma referência de quem são meus pais, meus avôs, como viveram, o que construíram ...
Hoje, exercito a minha imaginação escrevendo histórias infantis, algo diferente, a realidade vista com olhos de fantasia. Preciso disso para respirar melhor. Exercito também observando minha filha que vive em um mundo doce e terno da infância. Uma época em que nossos pais ainda são super heróis e diante deles nada pode nos atingir. Longe dos conflitos da adolescência em que esses mesmos super heróis podem se tornar nossos maiores inimigos e que não sabem nada da vida, mas acham que podem nos proteger. Tudo na verdade é uma grande bobagem que depende de ponto de vista. Todos nós somos feitos de carne e osso e o melhor mesmo é ser visto como GENTE, às vezes frágil, às vezes forte, mas GENTE, com qualidades e defeitos e, como todo e qualquer ser humano, longe da perfeição. Como essa é uma realidade da maioria, aproveito, agora, diante da minha filha de dois anos, a minha posição de super herói.
Uma nota: A fantasia é uma boa herança de nossa infância, na medida certa, aproveitamos dela inclusive pra nos proteger, pra colorir um pouco a realidade, às vezes chata, às vezes doída, às vezes até normal, mas a fantasia dá um novo sabor. Entre nesse universo dos teus filhos, te aproxima do mundo em que eles vivem, diverte e por uns instantes torna a vida mais agradável.
Recomendo A MADILÇÃO DA MOLEIRA, AUTORA- ÍNDIGO.
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