Memória

Assisti novamente ao filme Brilho eterno de uma mente sem lembrança. Desde que assisti pela primeira vez, fiquei instigada a escrever algo. Ele é muito interessante e propõe muitas discussões em volta do assunto tratado.
Para quem não viu:
Sinopse
Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet) formavam um casal que durante anos tentaram fazer com que o relacionamento entre ambos desse certo. Desiludida com o fracasso, Clementine decide esquecer Joel para sempre e, para tanto, aceita se submeter a um tratamento experimental, que retira de sua memória os momentos vividos com ele. Após saber de sua atitude Joel entra em depressão, frustrado por ainda estar apaixonado por alguém que quer esquecê-lo. Decidido a superar a questão, Joel também se submete ao tratamento experimental. Porém ele acaba desistindo de tentar esquecê-la e começa a encaixar Clementine em momentos de sua memória os quais ela não participa.

Parece loucura, mas é bem real dentro da história de cada um. Diante de relacionamentos frustrantes e séries de decepções, deseja-se, muitas vezes, apagar algo que gostaria de não ter vivido, apagar da memória alguém que preferia não ter conhecido. Não se pode descartar a idéia de que o que se vive é sempre válido e, algum dia, tivemos bons olhos pra aquilo, algum dia aquilo teve sentido e foi importante, alguma coisa ganhamos, alguma coisa aprendemos.
Assim, construímos nossa história, com uma diversidade de pessoas que nos trazem alegrias e tristezas. A maioria das vezes, não agem como gostaríamos, mas o mundo é assim, feito de singularidades, e ninguém é igual a ninguém. Não podemos esperar do outro atitudes que tomaríamos porque a vida seria um seqüência de frustrações, cada um tem seus valores, suas crenças, suas escalas de prioridades. Devemos nos esforçar para sermos tolerantes diante do próximo e quando o fim (da relação) chegar, viver o luto da maneira mais doída, pois é a forma mais saudável de lidar com a situação. Tenha certeza que, quando chegar o fim do poço, aprenderá boas manobras para subi-lo. Então, não queiram perder seu histórico de memória em qualquer canto por aí, é um membro seu, talvez inativo, mas, algum dia, já foi muito útil. No filme, eles estavam tão cansados da fase ruim que estavam vivendo que foi preciso quase perder, ver que estava indo embora para lembrar que havia algo de bom. E aí segue em desespero por estar perdendo a memória, o que nos compõe, o que nos identifica como seres diferentes, singulares.

O que seria de nós sem nossas lembranças? É tão ruim quando algumas se apagam, muitas coisas foram trágicas no momento, mas arrancou boas risadas tempos depois. É tão bom ter o que contar, pois, por mais que seja triste, faz com que nos sintamos vivos, algo pulsa dentro de nós e molda, faz os contornos da nossa vida. Quando olhamos pra trás, não está vazio, não é oco. Pode até ser um castelo torto, mal acabado, mas é seu, é um pedaço da sua vida e não é igual à de ninguém, inclusive quem fez parte da sua história vai contar ela de forma diferente, são outro olhos, outros sentimentos investidos.



DEDICO ESTE TEXTO A TODOS QUE LAMENTAM UMA HISTÓRIA DO PASSADO...NÃO LAMENTEM, POR ALGUM MOTIVO AQUILO PRECISAVA SER VIVIDO.

Comentários

Anônimo disse…
Sábias palavras. Há algo tão particular e tão universal nesse post que me fez relembrar de situações vividas e não digeridas. Continue nos instigando e deliciando com suas análises.
Ju e Felipe disse…
Realmente não é muito saudável olhar para o passado com olhos amargos ou como se algo tivesse ficado engasgado nalgum lugar. Geralmente esse estilo de ser nos faz virar as costas para o presente, e permanecemos ruminando o que não pode ser mais mudado. O passado apenas pode ser digerido. Para isso, deve ser mastigado pedaço por pedaço. Por que podemos até não gostar do nosso passado, mas devemos estar relativamente livre dele. Digo relativamente porque o passado faz parte da nossa história, como você mesma enfatizou. Nunca estaremos livres dele. Só não devemos estar presos a ele. É diferente. Eu olho para o meu passado e vejo muitas coisas que eu não gosto, muitas coisas que eu não gostaria de ter feito, muitos lugares nos quais eu me coloquei que não gostaria de ter me colocado porque fizeram tão mal para mim e muitas pessoas que eu gostaria apenas de ter cruzado um dia na rua e dito adeus, mas resolvi parar para desperdiçar meu tempo. Você tem razão. Sempre há coisas para aprendermos, mas tem uns erros que a gente comete na vida, eu acho, que não devíamos mais cometer e só posso achar que, sopesando pós e contras, resultaram mais em perdas do que em ganhos. Aceitar esses erros - até como desperdício de tempo e vida - e não ficar preso neles talvez seja o caminho para a maturidade. Por isso, esquecer as coisas ruins não é bom. O passado sempre está atrás de nós, lembrando dos erros que já cometemos para que não venhamos a cometê-los de novo. Como dizem por aí, se vamos errar, que seja um erro novo! E também está lá para nos lembrar das coisas maravilhosas que fizemos, do tanto que podemos ser felizes e do tanto que podemos ser melhores. O passado não é bom nem ruim, depende apenas do que fazemos com ele para nos reinventar!

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