Desejo e sublimação 2

Como eu disse na semana passada, Freud também tratou da questão da sublimação do desejo, mas para encontrá-la em seu texto O Mal-Estar da Civilização farei um percurso mais extenso pelos seus argumentos. Mas não se preocupem, pois esse caminho é extremamente interessante para o debate que proponho.
Freud inicia o referido texto às voltas com uma inquietante colocação feita por um amigo (Romain Rolland), a respeito da fonte da religiosidade, que seria experimentada por milhões de pessoas. Trata-se de um "sentimento oceânico" compreendido por Freud como sendo um sentimento de vínculo indissolúvel, de ser uno com o mundo externo como um todo.
Na sua experiência ele (Freud) não conseguiu se convencer da natureza primária desse sentimento reconhecendo, todavia, que isso não lhe daria o direito de negar que ele de fato ocorra em outras pessoas. Diante dessa situação, ele propõe uma explicação psicanalítica para essa questão.
Ao debruçar-se para melhor apreciação do tema, Freud se remete às fases primitivas da constituição do sujeito, na qual a criança recém-nascida ainda não distingue seu ego do mundo exterior. Essa seria a posição esquizoparanóide, assim definida por Melanie Klein, marcada pela presença do objeto fusional mãe-bebê. O "sentimento oceânico", então, estaria associado a uma fase primitiva do sentimento do ego o que, na visão de Freud, afastaria o direito de ser uma fonte das necessidades religiosas. Ele, entretanto, vai além, deixando uma dica a respeito do papel de Deus, ao tratar do desamparo experimentado pelo bebê nos seus primeiros dias da infância. Aterrorizado pelo medo do "poder superior do Destino" Freud afirma: "Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da proteção de um pai". Ele encerra sua argumentação reconhecendo que pode haver algo mais por trás disso, mas, presentemente, "ainda, está envolto em obscuridade".
Pois bem, seguindo a respeito do papel da religião, Freud atribui a ela a possibilidade de respostas para a questão mais complexa de todas: o propósito da vida. Entretanto, para evitar o confronto com o tema de tamanha magnitude, pois esse não parece ser seu objeto de elaboração, Freud ajusta a questão para algo mais tangível a sua técnica. O que os homens pedem da vida e o que desejam realizar? Ele, então responde, "eles se esforçam para obter a felicidade e assim permanecer". E conclui: "O que decide o propósito da vida é simplesmente o programa do princípio do prazer".
Para alcançar a felicidade plena, é preciso evitar as formas de sofrimento e Freud elenca algumas tentativas nesse sentido, todas elas incapazes de alcançar esse fim último. (1) O isolamento voluntário, como forma de evitar os desgastes decorrentes dos relacionamentos humanos. Daí decorreria a suposta felicidade da quietude. (2) O caminho daquele que trabalha com todos para o bem de todos, com o auxílio de uma técnica orientada pela ciência (não consegui encontrar no texto de Freud explicação clara do que seria isso). (3) métodos que visam influenciar o nosso próprio organismo.
Em relação a essa útima tentativa, Freud elenca 5 modalidades: (i) a intoxicação como o mais eficaz, todavia, perigosa e capaz de acarretar danos (é sabido o uso de cocaína por Freud para tratamento de seus pacientes durante certo período de sua clínica); (ii) o "aniquilamento dos instintos", tal como prescrito pela sabedoria do mundo peculiar ao Oriente e praticada pela ioga; (iii) a sublimação dos instintos, por meio do deslocamento da libido do aparelho mental, como fazem artistas em relação às suas criações, cientistas e suas descobertas, etc; porém, isso seria acessível a poucas pessoas , (iv) a vida da imaginação, relativa à fruição da fantasia pelas obras de arte, seja pelos seus criadores ou não, que teria apenas um caráter efêmero e não seria capaz de afastar a aflição real e (v) a opção mais radical e enérgica de um eremita, que considera a realidade como a única inimiga e a fonte de todo sofrimento e que ao final, na visão de Freud, produzirá um louco que não encontra ninguém para ajudá-lo a tornar o real o seu delírio.
Portanto, todas as hipóteses assinaladas acima são descartadas por Freud como meio para satisfazer a aspiração da plena felicidade, por meio da supressão de todo sofrimento.
Assim sendo, tanto Lacan quanto Freud descartam a possibilidade de supressão do desejo de natureza instintiva no sujeito. Ele não pode ser plenamente suprimido. Isso é fundamental para a delimitação da ética DA psicanálise. Até onde ela se permite avançar e quais seriam os seus limites de atuação sobe o sujeito.
Por outro lado, muita coisa ficou no ar. Tive o cuidado de olhar atentamente para os argumentos relacionados às tentativas de (ii)aniquilamento e (iii) sublimação dos instintos. No meu modo de ver, eles pareceram bastante precipitados, sem dizer do último (eremita), de caráter ligeiramente autoritário... É compreensível que Freud tenha se lançado dessa maneira estrita sobre o tema, afinal de contas, o princípio do prazer e a castração são pedras fundamentais de sua teoria e, portanto, não há espaços para concessões no seu argumento. Para ele, o instinto libidinal é inerente ao sujeito e sua castração é a via de passagem do campo celerado do gozo esquizofrênico para o campo ético do desejo neurótico. Sob a perspectiva lacaniana, a foraclusão dos afetos de natureza libidinal aprisionaria o sujeito nos caos psicótico e, no limite, o levaria à psicopatia. Daí a necessidade de os conteúdos do sujeito atravessarem, no campo da linguagem, o percurso da "significantização" do Real para o simbólico, por meio do recalcamento.
Mas parece haver um espaço não elaborado sobre a transformação do desejo. Algumas tradições orientais tratam dessa hipótese como questão fundamental de suas doutrinas. E, para além disso, percebem a possibilidade da transformação do desejo como meio para se atingir a plena felicidade, livre de sofrimento. Dentre elas, a que conheço é a do budismo tibetano. Não é objetivo desse blog discorrer sobre sua doutrina, nem convencer ninguém da autenticidade de seus conteúdos. A perspectiva de atuação da psicanálise oferece a possibilidade de progressos extremamente relevantes para seus pacientes que possuem objetivos muito mais humildes do que a plena iluminação. Suportar de forma saudável e prazerosa a condição miserável de nossa existência já é um grande objetivo e está ao alcance da técnica psicanalítica. Isso cobre, de forma massiva, a grande maioria das inquietações dos homens e mulheres de nossa sociedade e, portanto, não qualquer comentário a se fazer a esse respeito. Entretanto, é extremamente enriquecedor conhecer a maneira pela qual essa tradição apresenta a forma de constituição do sujeito seja ele ocidental ou oriental. Trata-se de uma perspectiva universal do sujeito e que tem como premissa algo que faz lembrar aquele "sentimento oceânico", que Freud não foi capaz de reconhecer e que , por isso, levou-o a apresentar uma explicação psicanalítica para algo que precede o sujeito da psicanálise.
Ao meu ver, perceber o sujeito sob uma perspectiva mais ampla não prejudica a aplicação da técnica psicanalítica de maneira responsável e adequada. Apenas permite ampliar ainda mais as formas de atuação.
Semana que vem eu falo um pouco mais sobre esse sujeito.

Comentários

Unknown disse…
Bruno,
Vontade de te matar! Quando eu começo a entender o texto você faz uma pausa para explicar o que não é objetivo do blog e fico com a impressão de descontinuidade do assunto. Aí, para nos consolar vc faz promessas para a semana seguinte. A vantagem é que supondo uma deficiência em mim, relerei tudo (todos os 3 textos) em busca do fio do sentido que devo ter deixado escapar.
Ana disse…
“Ao meu ver, perceber o sujeito sob uma perspectiva mais ampla não prejudica a aplicação da técnica psicanalítica de maneira responsável e adequada. Apenas permite ampliar ainda mais as formas de atuação.”

Concordo plenamente com a conclusão de seu post. Fiquei pensando sobre isso porque quando decidi fazer psicanálise (como analisanda), busquei por alguém que não se limitaria à uma técnica psicanalítica enquadrada. Me “entreguei” à minha analista quando percebi que era mais que uma técnica ou expert em psicanálise, ela trazia o suposto conhecimento necessário para que eu me confiasse a ela (se é que essa expressão existe), mas não limitava nosso trabalho em conceitos e definições. Ela me disse uma vez que não trabalhava sob a perspectiva da patologia. Acho que foi isso que ela disse, talvez tenha sido o que entendi, o que pouco importa agora, já que tomei-lhe a idéia para transpor aqui, entre as idéias que conto como minhas.
Bem, saindo da minha experiência pessoal no divã, e sem me despir dela, pois de lá tiro qualquer aproximação que tenho com o tema, já que nunca estudei a sério esses assuntos, acredito que o psicanalista não deve se limitar a um conceito de sujeito, seja em definições feitas por Freud ou Lacan ou qualquer outro. E, principalmente, acredito que um dos grandes desafios do psicanalista é transpor às próprias definições que constrói do sujeito. É desafiador porque nos formamos nesse mundo da ciência, da lógica, com base em premissas que consideramos verdadeiras. Não aprendemos a começar do nada! O psicanalista é sujeito, tanto quanto o seu objeto de estudo. O exercício de delimitá-lo em um conceito é efeito dessa forma como nós, sujeitos, construímos nosso saber, nosso pensar, nosso ser (verbo e substantivo), ou seja, pelos “conceitos” que os outros seres transmitem a nós, ou pelos “conceitos” que formamos a partir dos que tentam nos transmitir.
(Continua...)
Ana disse…
(...)
Definir e conceituar faz parte do exercício filosófico e pesquisador, ao menos nesses padrões que nos estruturamos. Mas é apenas uma parte do processo.
Para o psicanalista é um desafio lidar com o surpreendente do paciente, quero dizer, com aquilo que se vai encontrar além dos conceitos esmiuçados em livros. É um grande desafio encarar as próprias limitações diante do paciente e um imenso desafio lidar com as limitações existentes na relação psicanalista-paciente. Pois não se pode negar que no set psicanalítico, a questão do desejo não está presente apenas no paciente, mas ele pulsa no psicanalista que anseia por algum resultado naquele trabalho...
Beeeijos,
Bruno Vichi disse…
Maira,
Não queira matar, não! (rs)
Espero que a última postagem tenha contribuído para desembaraçar as idéias apresentadas anteriormente.
abraços
Bruno
Bruno Vichi disse…
Ana,
Muito precisos os seus comentários! Você "captou a mensagem" (rs) Apenas gostaria de dizer que o verdadeiro anseio do picanalista não deve ser a "cura" do seu paciente mas, sim, que ele um dia seja capaz de dispensar o seu psicanalista e lidar com seus próprios conteúdos de uma maneira saudável.

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