Desejo, sujeito da psicanálise e ser-humano
Hoje pretendo fechar o raciocínio a respeito do desejo e a constituição do sujeito, que se iniciou no primeiro texto que postei.
Para isso é importante marcar com atenção, desde o início, a distinção que há entre dois conceitos diferentes e que, até a publicação desse texto, não havia sido feita de forma clara: o sujeito do inconsciente ou sujeito da psicanálise, incurável, objeto de atuação dos psicanalistas e cuja formulação, no meu modo de ver, nem sempre é clara (em tempo, apesar de prolixo, Lacan tem um pouco mais de êxito nessa tarefa do que Freud) e o "sujeito-sintoma" ou ser-humano, que sou eu, você e qualquer um andando na rua ou lendo este blog.
O primeiro se constrõe no setting psicanalítico, ou seja, no consultório. Deitado no divã, o analisando teia junta com o analista a trama linguística de inconscientes que desvela a cadeia de significantes e dá origem a esse sujeito da psicanálise. Ele é produto do fenômeno psicanalítico, do "aqui-agora" psicanalítico. Ele aparece e desaparece no discurso do Outro. O segundo é esse "ser" em relação ao qual as diversas tradições e filosofias apresentam formulações e teorias sobre sua natureza e constituição e que, no meu modo de ver, não está restrito ao discurso do campo psicanalítico. Apesar de identificar muitos pontos de convergência com ele (discurso psicanalítico), parto da premissa de que o ser-humano não é simplesmente o resultado do discurso do Outro. Particularmente, acredito que sua natureza seja vacuidade, claridade e não-obstrução. Nada impede que cada psicanalista tenha a sua versão íntima sobre a natureza do ser-humano. Entretanto, isso não interfere, ou melhor, não deve interferir diretamente na aplicação da técnica psicanalítica, pois o objeto sobre o qual o psicanalista atua é o sujeito da psicanálise.
Pois bem. Tal distinção não aparece tão clara nos textos psicanalíticos dos autores trazidos nas últimas semanas. Na ânsia de encontrarem fundamentos para para uma pretensiosa teoria geral sobre o sujeito, que vai além da teoria psicanalítica (enquanto técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise), os autores se referem a um e outro sem fazerem distinções. Nesse sentido, ao tratarem de questões envolvendo o ser-humano, os grandes formuladores do discurso psicanálitico, Freud e Lacan, fazem coro ao afirmar a impossibilidade de supressão do desejo como possibilidade para a cessação plena do sofrimento.
Enquanto psicanalista, inclino-me para a noção de que o sujeito da psicanálise está inserido num universo de desejo e que se estrutura no campo da linguagem, a partir da relação dual com o outro, marcada pelo instinto libidinal de ser. É essa pulsão que torna possível a vida e que sustenta a farsa dos nossos sentidos e a tirania dos seus desmandos. Apesar de acreditar que a essência do ser-humano é ilimitada, ou seja, vai além das categorias psicanalíticas, sob uma perspectiva relativa, o desejo lhe é estruturante e a tentativa de arrancá-lo, na enorme maioria dos casos com os quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, acarretaria muito mais problemas do que soluções. De outro lado, isso não significa, necessariamente, que o ser-humano seja incapaz de transformar o desejo, como o propósito de cessação plena do sofrimento, como propõem certas tradições e filosofias orientais, fato que este que abriria uma possibilidade ainda nova para o pensamento ocidental sobre como lidar com os sintomas da humanidade ou, ainda, de maneira mais ousada, como lidar com o próprio ser-humano. Nas diversas passagens colhidas ao longo dos textos anteriores, ficou clara a superficialidade com que Lacan e Freud trataram da "ascese da disciplina do prazer tibetana" e das "técnicas orientais hinduistas e de yoga" para lidar com o desejo, respectivamente. Diferente da teoria psicanalítica, que possui pouco mais de um século de existência, tratam-se de sabedorias milenares e que exigiriam uma abordagem bastante aprofundada, caso se pretendesse refutar suas proposições.
Diante de tais constatações, pode-se afirmar que as formulações acerca do ser-humano, que invariavelmente se confundem no discurso psicanalítico desses autores com a constituição do sujeito da psicanálise, contêm categorias estruturadas a partir de um universo simbólico de origem grega e judaico-cristã, inegavelmente vinculado a uma perspectiva ocidental. Uma das razões para isso é o fato de que tais formulações se fundamentam na experiência da clínica psicanalítica, cujo campo de atuação é quase exclusivamente marcado por raízes culturais judaico-cristãs. Outro razão está nos influxos da mitologia grega e da filosofia ocidental sobre seu arcabouço teórico. Ora, é preciso registrar que a psicanálise é, em síntese, uma técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise. Sua competência nessa missão é inegável e sua pretensão não vai e não deve ir além disso. Entretanto, quando se pretende uma formulação universal sobre o ser-humano deve-se abandonar a perspectiva etnocentrista e buscar uma experiência que não se restrinja à psicanalítica.
Com essas considerações espero ter desfeito alguns dos "nós" que embolavam as afirmações dos meus primeiros textos. Será?
Semana que vem pretendo trazer algo novo. Até lá!
Para isso é importante marcar com atenção, desde o início, a distinção que há entre dois conceitos diferentes e que, até a publicação desse texto, não havia sido feita de forma clara: o sujeito do inconsciente ou sujeito da psicanálise, incurável, objeto de atuação dos psicanalistas e cuja formulação, no meu modo de ver, nem sempre é clara (em tempo, apesar de prolixo, Lacan tem um pouco mais de êxito nessa tarefa do que Freud) e o "sujeito-sintoma" ou ser-humano, que sou eu, você e qualquer um andando na rua ou lendo este blog.
O primeiro se constrõe no setting psicanalítico, ou seja, no consultório. Deitado no divã, o analisando teia junta com o analista a trama linguística de inconscientes que desvela a cadeia de significantes e dá origem a esse sujeito da psicanálise. Ele é produto do fenômeno psicanalítico, do "aqui-agora" psicanalítico. Ele aparece e desaparece no discurso do Outro. O segundo é esse "ser" em relação ao qual as diversas tradições e filosofias apresentam formulações e teorias sobre sua natureza e constituição e que, no meu modo de ver, não está restrito ao discurso do campo psicanalítico. Apesar de identificar muitos pontos de convergência com ele (discurso psicanalítico), parto da premissa de que o ser-humano não é simplesmente o resultado do discurso do Outro. Particularmente, acredito que sua natureza seja vacuidade, claridade e não-obstrução. Nada impede que cada psicanalista tenha a sua versão íntima sobre a natureza do ser-humano. Entretanto, isso não interfere, ou melhor, não deve interferir diretamente na aplicação da técnica psicanalítica, pois o objeto sobre o qual o psicanalista atua é o sujeito da psicanálise.
Pois bem. Tal distinção não aparece tão clara nos textos psicanalíticos dos autores trazidos nas últimas semanas. Na ânsia de encontrarem fundamentos para para uma pretensiosa teoria geral sobre o sujeito, que vai além da teoria psicanalítica (enquanto técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise), os autores se referem a um e outro sem fazerem distinções. Nesse sentido, ao tratarem de questões envolvendo o ser-humano, os grandes formuladores do discurso psicanálitico, Freud e Lacan, fazem coro ao afirmar a impossibilidade de supressão do desejo como possibilidade para a cessação plena do sofrimento.
Enquanto psicanalista, inclino-me para a noção de que o sujeito da psicanálise está inserido num universo de desejo e que se estrutura no campo da linguagem, a partir da relação dual com o outro, marcada pelo instinto libidinal de ser. É essa pulsão que torna possível a vida e que sustenta a farsa dos nossos sentidos e a tirania dos seus desmandos. Apesar de acreditar que a essência do ser-humano é ilimitada, ou seja, vai além das categorias psicanalíticas, sob uma perspectiva relativa, o desejo lhe é estruturante e a tentativa de arrancá-lo, na enorme maioria dos casos com os quais nos deparamos no nosso dia-a-dia, acarretaria muito mais problemas do que soluções. De outro lado, isso não significa, necessariamente, que o ser-humano seja incapaz de transformar o desejo, como o propósito de cessação plena do sofrimento, como propõem certas tradições e filosofias orientais, fato que este que abriria uma possibilidade ainda nova para o pensamento ocidental sobre como lidar com os sintomas da humanidade ou, ainda, de maneira mais ousada, como lidar com o próprio ser-humano. Nas diversas passagens colhidas ao longo dos textos anteriores, ficou clara a superficialidade com que Lacan e Freud trataram da "ascese da disciplina do prazer tibetana" e das "técnicas orientais hinduistas e de yoga" para lidar com o desejo, respectivamente. Diferente da teoria psicanalítica, que possui pouco mais de um século de existência, tratam-se de sabedorias milenares e que exigiriam uma abordagem bastante aprofundada, caso se pretendesse refutar suas proposições.
Diante de tais constatações, pode-se afirmar que as formulações acerca do ser-humano, que invariavelmente se confundem no discurso psicanalítico desses autores com a constituição do sujeito da psicanálise, contêm categorias estruturadas a partir de um universo simbólico de origem grega e judaico-cristã, inegavelmente vinculado a uma perspectiva ocidental. Uma das razões para isso é o fato de que tais formulações se fundamentam na experiência da clínica psicanalítica, cujo campo de atuação é quase exclusivamente marcado por raízes culturais judaico-cristãs. Outro razão está nos influxos da mitologia grega e da filosofia ocidental sobre seu arcabouço teórico. Ora, é preciso registrar que a psicanálise é, em síntese, uma técnica para lidar com os sintomas do sujeito da psicanálise. Sua competência nessa missão é inegável e sua pretensão não vai e não deve ir além disso. Entretanto, quando se pretende uma formulação universal sobre o ser-humano deve-se abandonar a perspectiva etnocentrista e buscar uma experiência que não se restrinja à psicanalítica.
Com essas considerações espero ter desfeito alguns dos "nós" que embolavam as afirmações dos meus primeiros textos. Será?
Semana que vem pretendo trazer algo novo. Até lá!
Comentários
Quanto ao desejo acho que ele é estruturante e na mesma medida desestruturante.Boa sorte pra nós nesta profissão louca e sedutora.
Concordo com seus comentários, principalmente quando ressalta o caráter pioneiro de Freud, na construção de um novo saber sobre o sujeito e, ainda, quando diz "Quando ao desejo que ele é estruturante e na memsa medida desestruturante". Muito bom!