IN TREATMENTE (EM TERAPIA)
Quem acompanha o seriado americano “in treatment” vai entender o que estou falando. Para quem não acompanha, trata-se das sessões semanais de um psicoterapeuta e seus pacientes, tendo ainda sua própria terapia semanal e algumas cenas de sua vida pessoal. Cada dia da semana é destinado a uma paciente.
No primeiro episódio temos uma noção da contratransferência com a Laura, uma paciente extremamente sedutora, que se apaixona pelo analista e tenta seduzi-lo para que este faça parte de mais uma de suas conquistas, sendo este o meu ponto de vista. Pela história de vida dela não consegui enxergar de outra forma. Como o casamento de Paul(o analista) vinha enfrentando uma crise, ele se deixou seduzir, não concretizando o ato devido à ética da sua profissão. Neste ponto ele entra em cena com Gina (sua terapeuta e mentora), expondo seus conflitos em relação a profissão e o que deve se abdicar da vida em prol desta.
Neste momento vem à tona a humanidade do terapeuta, mesmo diante daqueles fatos de vida da paciente e informações que ele tem acesso para delinear aquela personalidade, se permitiu entrar no jogo, de forma ingênua, podemos dizer, embora não sei bem se é essa a palavra que cabe. Aí ele entra no lugar comum, sai da posição de “Sujeito Suposto Saber” para fazer parte da vida do paciente, expondo suas fragilidades e se permitindo achar que “com ele será diferente”. Como telespectadora, vendo aquelas vidas de cima (ressalto, de telespectadora e não de analista), de um ângulo completamente diferente daquele visto por quem vive, não acreditei como Paul se deixou seduzir, os fatos estavam ali na sua frente e ele se tornava cada vez mais alvo fixo dela, justamente pelas dificuldades que se apresentavam. Não temos como saber se Paul seria mais uma aventura para Laura, não foi dito no final da temporada, mas eu não consigo ver diferente, mesmo porque ela não foi devidamente analisada e ficaram muitas pontas soltas, já que ela ia para o consultório para seduzir o terapeuta. Interrompeu a sua análise antes mesmo de montar as peças do quebra cabeça do seu psiquismo, que era bastante confuso.
Devido à crise de um casamento falido, a esposa de Paul também se envolveu com outra pessoa e a raiva que ele sentiu não era só o ego ferido, mas era também porque ela concretizou algo que ele gostaria de ter feito, mas não fez porque estava atado devido à ética profissional.
Eu não tenho muito apreço pela Laura, minha paciente preferida foi a Sophie, uma ginasta, mas não vou falar dela desta vez. Agora, na segunda temporada, o paciente que conseguiu despertar minha atenção foi o Walter, um senhor de bastante idade, bem sucedido profissionalmente que tem crises de pânico desde a infância. O que eu não acho legal neste seriado são dois pontos:
1- O fato dos pacientes serem sempre resistentes, sempre agressivos e, nesta segunda temporada, isso se evidencia. Isso não é uma regra na clínica da vida real, grande parte está com a predisposição para colaborar da melhor forma possível com a análise.
2- Na tentativa de expor a humanidade do terapeuta Paul é colocado numa posição muito pouco racional na sua própria terapia. Isso também fica mais evidente na segunda temporada, quando ele mostra diante da sua terapeuta, as mesmas resistências (apresentadas pelos pacientes dele) diante da sua análise pessoal. Acho que com a experiência que ele tem de mais de vinte anos deveria elaborar melhor sua postura diante de seus próprios problemas.
Essa profissão é apaixonante, falo da minha experiência como psicanalista, como é renovador tocar o outro de forma tão profunda e diferente, sacudir, fazer com que aquele diante de você se reinvente, se aceite e se transforme. Como contra partida, a cada consulta, o mesmo acontece com o analista. É um constante aprendizado, uma construção contínua na vida de ambos. Agradeço a todos os meus pacientes que estão em análise e aos que finalizaram esta.
Comentários
Entendo seu ponto de vista quanto à vulnerabilidade excessiva de Paul, mas é preciso se lembrar do objetivo aparente da série: desmistificar o terapeuta. Sim, há um excesso de "humanidade" em Paul, mas isso é usado para discutir questões. Quanto à ênfase em pacientes resistentes, concordo. Mas, mais uma vez, estamos diante do signo enfatizado pelo roteiro, o que se pretende levantar como ícone. Acho ainda que fica empobrecido, não só pela pouca variedade de inícios de tratamentos (são todos pacientes resistentes), mas também pela falta de sutileza nos modos de resistir. Nem sempre uma resistência é explícita.
No entanto, acho ingênuo supor que a experiência de um terapeuta o deixe imune a suas próprias vulnerabilidades. Ele as tem racionalizadas, mas atuar nelas é outra coisa. A troca de lugar (de terapeuta para paciente) modifica tudo. E é nesse novo papel que é possível experimentar as agruras de ser analisado.
Quanto a Laura, tive a impressão que Paul seria mais um em suas conquistas, pela análise final de Gina, na qual ela fala sobre a ironia da "cura" de Laura manifesta justamente em sua rejeição por Paul.
Realmente não conheço a série, mas pelo que você disse, e pelo que vi bem do interesse de sua prática terapêutica, o que falta para agradar melhor os pares reais do personagem fictício seria uma consultoria com mais voz na produção do roteiros e na produção em si.
Como observador leigo no assunto, entendo que os pacientes do rapaz precisam ser assim para ser dramaticamente interessante para o público que assiste. E que na maioria não deve ser psicanalista.
Deve ser do mesmo jeito que um médico assiste a um episódio de House ou ER... Vai sempre achar tudo muito exagerado e dramático, mas é porque é um drama. Sem drama a ficção perde o atrativo... pelo menos o comercial.
Abraços,
Fabiano
Concordamos em relação a Laura mas eu não lembro dessa interpretação da Gina, perfeita.
Beijos.
Nunca vi o programa, que aliás, já me tinha sido indicado pela minha analista. Mas suponho que deve ser mesmo muito interessante essa humanização do psicanalista.
Agora, viajando nos seus relatos, o fato de ele ser agressivo ou resistente enqüanto paciente, na minha opinião, demonstra uma não resistência dele. Parece contraditório, né?! E é mesmo! Afinal a contradição faz parte de todos nós. Mas o que quero dizer é que a resistência dele, ou a agressividade, demonstra que ele, ao deitar-se no divã, se despe da carapaça de "Sujeito Suposto Saber" e veste a de paciente.
Quem sabe um excesso de racionalismo e uma postura mais madura não seria um sinal de que o paciente ainda não "se entregou" ao analista?!
Eu encaro o trabalho da análise como uma grande oportunidade de lidar com os temas mais profundos que nos assombram. E esses, em geral, são tratáveis, ou antes disso, diagnosticáveis, exatamente quando nos liberamos do controle do consciente, do controle do racional.
Quando esses elementos emergem à superfície, em forma de sentimentos tolos, podem então ser pescados pelo psicanalista e então passam a ser tratáveis, E, numa perspectiva otimista, tratados. (rss) Ou trabalhados, melhorados, dilapidados...
Assim, quando o Psicanalista-personagem libera seus sentimentos, pensamentos e atitudes “tolas”, se permite o tratamento psicanalítico. Ora, com esse intuito vocês psicanalistas nos enganam fazendo cara de paisagem quando soltamos os maiores absurdos de nossas intimidades, não é?! Para que nos sintamos completamente à vontade para liberar o que está submerso e expor aos seus olhares “psicanalisantes”!
Adorei o post!
Beijos!
Sobre as coisas que nos assombram,lembrei de algo que o Contardo Calligares escreveu:"Como se verifica em qualquer psicoterapia, não adianta recusar nossas caretas. Mesmo que elas nos pareçam grotescas, é melhor aceitá-las, assumi-las, examiná-las com carinho e enxergar nelas as razões possíveis de um apreço. Ou seja, em vez de querer ser outro, é mais interessante inventar o que podemos fazer com o que somos."
E no último parágrafo,posso te dizer uma coisa, certa vez um amigo meu cantou para mim quando eu tinha lá meus 17 anos..."Adoro esse olhar blasé.Que não só já viu quase tudo,
mas acha tudo tão deja vu mesmo antes de ver..."Adriana Calcanhoto. Então, eu já tinha esse olhar antes da psicanalise...É que agente escuta tanta coisa que nada mais parece estranho, é tudo familiar!!!!
Muito obrigada pela sua assiduidade no nosso blog.
Beijos!!!!
Achei genial a percepção da Ana Cabral quanto a uma suposta postura rebuscada de Paul diante de Gina denotar uma resistência ao próprio humano. No fundo a gente sempre acha que, seja em que profissão escolhamos, tenhamos que nos transformar nelas, que é preciso dar o exemplo à partir de si mesmo. Quando na verdade, por mais que nossa profissão nos permeie, ela é apenas uma de nossas características agregadas. E sair de dentro das suas convenções pode representar muito mais um reconhecimento do que se é de fato - HUMANO - do que negar a si mesmo.