PAI, MÃE, FILHOS...
Outro dia acompanhei uma discussão no Orkut sobre a importância da tríade pai, mãe e filho na sociedade atual. A comunidade chama-se “psicanálise clinica”. A pessoa que abriu defendia o fato de que apesar dos valores da sociedade atual, nada substitui esta tríade fundamental para a construção psíquica saudável do ser. Ainda ressalta que um não consegue fazer o papel de dois e que o mito de PÃE é muito difícil de ser desempenhado de forma completa.
Depoimento do Renato D’Martino:
O mito do Pãe
- Acumulo de função; o mito do Pãe
A denominação “Pãe” é interessante e perigosa.
Sugere onipotência (extremamente prejudicial como modelo de ser humano), um super-herói, alguém que na verdade não existe, pois deixa de viver sua própria vida em função do outro.
Penso que a tarefa de cuidado dos filhos é sempre melhor sucedida quando feita em uma dupla, porém, em qualquer que seja a tentativa de dividir a pratica dessa tarefa, o afeto é um ingrediente indispensável.
Em ultima analise, se falarmos em necessidade, penso que pode ser a única saída, mas, não podemos esquecer que educar um filho é tarefa de uma dupla (mais especificamente uma mulher e um homem), nunca de um só. Existem mecanismos psíquicos e experiências emocionais extremamente importantes para o desenvolvimento, que só podem ser vividas no triângulo Mãe, Pai e Filho.
Digo isso pois, sem esse modelo é real e claro o prejuízo no desenvolvimento emocional do sujeito. Cuidar do que se criou por dois, continua sendo um papel da dupla, assim como foi no momento da concepção.
Daí vieram os contrapontos. O mais significativo foi o de uma psicóloga que defendeu a idéia de que a sociedade se compõe de vários núcleos e que a realidade atual não comporta este modelo tão certinho de família feliz, mas ou menos isso...Ainda uma outra pessoa disse que essa tríade não garante que o psiquismo da criança será promissor. Renato, ainda completa dizendo que uma união feliz e segura pode servir como primeiro passo.
Concordo com Renato plenamente, um ambiente seguro, amoroso pode não ser a solução de todos os problemas, mas pode servir de base bem sólida para construção do psiquismo saudável. Os pais inserem a criança no mundo da linguagem, dos pais depende muito a formação da criança, claro que cada um vai agir diferente diante daquilo que é passado, recebido, depende também do olhar de quem vivencia. Dois filhos de pais separados podem processar psiquicamente esta separação de forma diferente, além de depender muito de como os pais vão reagir diante dos filhos neste processo de separação.
Em uma separação é importante:
-Saber separar o homem do pai, pode ser um péssimo marido, mas não impede que seja um ótimo pai.
-Denegrir a imagem do pai ou da mãe não é construtivo para a criança.
- Não envolvam a criança nos problemas emocionais que diz respeito apenas aos dois.
Difícil? Como seres humanos passíveis de sentimentos descontrolados e que muitas vezes dominam, acabamos enfiando os pés pelas mãos. Não funciona como receita de bolo, mas cuidando destes pontos minimizam-se os problemas.
Alguns defendem o fato da sociedade atual abrigar uma realidade de grande incidência de casais separados e mãe solteiras. Apesar de fazer parte do quadro atual não abdicamos do mérito de que de uma família com pai, mãe e filho passa uma segurança indiscutível para o crescimento de qualquer ser, independente do crescimento constante do número de divorciados ou mães que não sabem o paradeiro do pai do filho.
Um avô ou um irmão pode ocupar o lugar do pai como referencial masculino e desempenhar um papel muito bom em certos aspectos da vida de uma criança, mas o buraco do pai... muito difícil de alguém ocupar. Um caso de abandono é triste, seja ele emocional ou físico. Fica um oco, um vazio cheio de por quês que, provavelmente, não serão respondidos. Pai morto também deixa vazios. Por isso, em muitos casos de adoção, o filho adotivo tem uma grande necessidade de reencontrar ou conhecer os pais biológicos.
A partir do momento que não podemos dar mais aos nossos filhos exemplo de amor e a união inicial tornou-se sem sentido, não devemos prolongar um sacrifício inútil de convivência forçada, É importante que exista um referencial de amor, companheirismo, amizade, respeito e até mesmo de desejo entre os pais. Sem o desejo entre os pais não se castra uma criança. Se estes referenciais não são mais possíveis segue a separação, que no caso será mais saudável se acontecer de forma madura e equilibrada.
Quando eu falo de referencial de amor, não me refiro ao amor romântico de Romeu e Julieta, ou Eros e Psique, falo do toque de carinho natural que o filho pode presenciar, da ajuda mutua, o estender a mão quando a família de origem(pai e mãe) de ambos precisam de ajuda, o incentivo profissional, o apoio, o poder contar um com o outro, as brincadeiras familiares, o olhar de desejo, de beleza, admiração, tudo isso a criança sente e serve como base de vida. Isso é importante...se isso acabar, o “estar junto” perde o sentido.
RECOMENDO UM FILME BOBO E BEM LIGHT QUE ABORDA O ASSUNTO DE FORMA ROMÂNTICA: TRÊS FORMAS DE AMAR, um pai conta as suas histórias de amor para a filha, inclusive como conheceu e se apaixonou pela mãe Del. São separados atualmente, mas ressalta que já houve entre eles um grande amor e o que deu certo na história foi ela, a filha. Assistam!!!
Comentários
Obrigado por considerar minha opinião!
Acho muito interessante a preocupação quanto aos tipos de "seres" que se desenvolvem diante da criança, como uma realidade inicial básica, e não meramente o "estar junto" de qualquer jeito, com todo tipo de excrescência se impondo diante do pequeno ser que se forma.
Gostei muito do seu texto e talvez o que eu tenha a dizer seja para reforçar tudo que já foi dito tanto por você como pelo Renato.
Em nossos dias temos vários tipos de famílias que se organizam de diferentes maneiras, não somente no formato tradicional – pai, mãe, filho – e seria um retrocesso não se admitir o que é fato. Mas os ‘lugares’ ou ‘posições’ destes papeis ainda não foram destituídos da psique do indivíduo, mesmo no nosso mundo moderno e evoluído, seja a família constituída da forma tradicional ou não. Nem mesmo há garantias que em qualquer uma dessa situação familiar, o pai biológico ou quem o substituir, desempenhe o que é de fato o seu lugar, e esse lugar pode ser sempre vazio.
Ainda tem um outro aspecto, que é o fato da identificação com esse pai e desse lugar ocupado (ou não), que esse filho vivencia. Ao se torna, também, pai, haverá a transmissão do que foi recebido. Como será o menino agora ao ser pai?
Não defendo que o pai deva estar a serviço dos filhos, o caminho do meio é sempre o melhor: o filho não deveria ficar nem no centro nem na periferia da vida dos pais.
Ao mesmo tempo acho que é relativamente nova essa postura de pai presente, guarda compartilhada (no caso de filho de separação), etc. Parece haver um movimento em resposta há uma cobrança da sociedade, de que o pai mostre-se pai, interessado, seja responsável e de preferência até afetuoso. Se não, ele não vai ficar bem na fita!Vejo hoje uma cobrança maciça do tipo: “você deixou de ser casado não de ser pai!” e cenas de homens empurrando carrinhos de bebê cada vez mais comuns (Que bom! E que não fique só nisso, né?). E se por ventura do destino a criança tiver alguma deficiência, exigir cuidados especiais, ou coisa parecida? A cobrança de todos é mais pesada! E o pai procurará ser politicamente correto e se esforçará para corresponder às expectativas a esse apelo do público para mostrar seu bom caráter e ficar bem como bom pai.
Como fala a escritora Ayelet Waldman em entrevista à revista Época: "Não é preciso muito para ser um bom pai". Em outro momento ela fala: “Se os homens estão só um pouquinho mais envolvidos com seus filhos do que seus pais foram com eles, achamos que eles são maravilhosos!”.
Bom, o homem até pouco tempo não se preocupava se suas relações sexuais resultariam em filhos, isso não parecia ser uma preocupação relevante. Talvez o teste de DNA tenha contribuído ao chamar esse pai à paternidade e também ser reconhecido pelos demais como ‘bom pai’ ou ‘pai presente’ pesará na sua auto imagem. No meu entender, essa reflexão sobre a paternidade foi buscada de fora para dentro.
Bj, obrigada.
Muitos pais estão preocupados realmente em ficar bem na fita, que seja assim se conseguirem desempenhar bem seus papéis, achei muito boa a sua colocação sobre o teste de DNA, nunca tinha pensado deste ângulo da história...mas acredito também que existem muitos pais sendo país pelo desejo da paternagem e estão ternamente envolividos com os seus filhos.
Gostei muito também da questão que vc levantou: como será o menino agora ao ser pai? Lembrei de uma frase que anda rolando aí nos e-mails que fala mais ou menos assim: "Nos preocupamos tanto com que mundo estamos deixando para os nossos filhos e esquecemos de questionar sobre que filho estamos deixando para esse mundo." Então é produtivo, para o bem do mundo que preparemos nossos filhos para serem comprometidos emocionalmente porque com esse tipo de comprometimento preparamos filhos melhore para o mundo de uma forma geral.Bj.Obrigada.
Um abraço!