BONECAS RUSSAS
Um filme que trata da busca amorosa, um assunto inerente ao ser humano. A grande maioria dos pacientes que passam no meu divã traz como foco da análise O AMOR. Seria esta a moral da história no filme? A busca incessante e infindável do amor? Quando achamos que aquele é o último tem sempre uma bonequinha dentro da outra para mostrar a continuidade, o inesperado, o novo. Normalmente observamos dois tipos de postura em relação ao amor, em uma delas o amor atual é vivido como se fosse o último e eterno, aquela coisa que transcende a vida, a grandeza do sentimento é tanta que achamos que não cabe nada além disso. Vive-se também como se fosse o primeiro, saboreando a novidade, o encantamento de todos os começos.
Xavier, o protagonista da história, é angustiado com o fato de escrever sobre amor, mas nunca viveu isso de forma verdadeira e duradoura. Como escrever sobre algo que não foi vivenciado?
Vou me concentrar em três pontos do filme:
1º - O SOCIAL
Xavier quer apresentar uma amiga para o avô como se fosse sua noiva, não gosta da idéia do avô morrer achando que o neto nunca teve um amor de verdade. Daqui extraímos a cobrança social, que aliada a nossa cobrança pessoal, gera uma grande angustia. A princípio a sociedade que se diz tão moderna cobra um namorado(a), depois o casamento, depois o primeiro filho e, quando este nem nasceu, pergunta-se quando virá o segundo. Muitos carregam e se angustiam com estes estereótipos sociais, tentam se moldar ao que é socialmente correto e apresentável. As cobranças sociais e pessoais se aliam gerando um monstro que quase nos engole quando analisamos nossos objetivos alcançados e, pior, os não alcançados. Neste momento do filme constatamos que a busca amorosa dele não era só pessoal, ele precisava de alguém para apresentar socialmente.
2º - O AMOR REAL
Xavier tem a oportunidade de viver um amor de verdade e tudo caminha bem, mas uma nova paixão é tentadora. Neste momento ele prioriza a fantasia, a ilusão, seu brinquedo, seu troféu, alguém tão belo que parecia ser irreal (e era), deixando para traz a princesa da realidade, de carne e osso. Experimentou, pela primeira vez, o amor e descobriu que com ele temos que lidar com os nossos desejos muitas vezes contraditórios, com a insatisfação diante da estabilidade, com a tentação da infidelidade. Como é difícil atingir esse amor que tanto almejamos e como é fácil perdê-lo. A angústia, que anteriormente era pela busca do amor, muda de foco, troca de roupa, mas está sempre ali, com ou sem amor, tirando nosso sossego, a nossa paz e tranqüilidade.
3º - AMANDO AS IMPERFEIÇÕES
Minha parte preferida do filme:
“-Você é um homem perfeito. Você é a melhor coisa que me aconteceu nos últimos 26 anos. Sei que você nem sempre é perfeito, que tem problemas, defeitos, imperfeições, mas quem não tem? Eu gosto dos seus problemas, me apaixonei por seus defeitos ele são fantásticos. Sei que as mulheres adoram homens bonitos, mas elas só vêem isso. Eu não sou assim. Não vejo só a beleza, gosto de outras coisas. Gosto do que não é perfeito. Eu sou assim.”
Na verdade amamos o pacote, não tem como separar os defeitos e qualidades e amar o que nos convém, amamos o ser por inteiro e o olhar muda quando se ama. As imperfeições tornam-se belas quando compreensíveis. O amor é uma plenitude, uma magia, entendemos o outro como ser humano que nós mesmo somos passíveis de erros e acertos. É tão difícil ser Deus, é tão difícil quando somos idolatrados porque o mínimo que façamos será perdido para sempre. Bom mesmo é ser humano e ser olhado com mais compaixão diante de nosso erros e imperfeições.
Precisamos amar e ser amado para nos sentirmos mais completos? Não será isso ilusório? Teremos sempre a sensação de incompletude, mas isso nos move, nos leva para frente, faz parte da nossa trajetória. Não deixem de apreciar o filme.
Comentários
O que leio no filme é um questionamento quanto ao movimento sonambúlico da busca amorosa - simbolizado com as sucessivas bonecas que se vai encontrando a cada novo desencaixe. Esse é daqueles filmes nos quais a última frase reconfigura todo o entendimento anterior. Ao apontar para o fato de nunca sabermos qual é a última bonequinha (ou seja, qual é o amor verdadeiro), Xavier nos dá uma dica da sua incapacidade de cessar a busca, independente de ter se deparado com o amor ou não - tanto quanto sua incapacidade de vivenciar o amor, pela necessidade de continuar procurando por ele. Talvez aí nos deparemos com a máxima lacaniana de sermos movidos pela falta. E, no caso de Xavier, esse é um movimento que não pode ser contido. Ele não é capaz de fazer escolhas (assim como muitos de nós, é claro). É preciso sempre um novo desencaixe para verificar a próxima bonequinha (amor) a se revelar. Não se pode perder nada da vida, é preciso verificar tudo o que ela ofereça. Assim, a sugestão do roteiro é que se passará pela vida apenas revisando-a, sem jamais adentrá-la.
Quanto a oposição naquele trecho vc está certa, eu dei a idéia de oposição mas na verdade são complementos.Vivemos como se fosse o último e o primeiro, mas eu não sei se considero o encantamento, o sabor da novidade o elemento viciante, acredito que a busca seja este elemento.
De extrema relevância seu comentário, muito obrigada e um grande BEIJO.
Muito boa a sua pergunta: O que é o amor verdadeiro? É essa a resposta que tentamos encontrar ao abrir cada nova boneca.
Mas respondendo mais objetivamente, eu me referia a um tipo de ligação mais profunda, que não seja mera distração ou brincadeira. Uma relação de relevância, digamos assim.
Lembrei que as bonecas russas que vi, tem um formato de um ovo e se encaixam uma dentro da outra. Relacionei isso ao estado de simbiose ou fusão que o bebê sente em relação à mãe. Esse estado será depois associado ao amor, será a referência de amor. É esse estado que tentamos repeti-lo na vida adulta. E se isso não foi vivido? Como fica?
Sobre o amor, acho super relevante, para o trabalho no Divã, esse destaque que você fez para o social. É que temos essa dificuldade extremada em nos identificar de forma descolada desses ideais sócio-familiares. Aliás, sobre isso sou mesmo muito cética. Acho que vale o exercício, e enfrento semanalmente o meu divã nessa busca de auto conhecimento e de liberdade de ser. MAs verdadeiramente acredito que nossa liberdade é uma utopia. Ou não... É que acho que nossa capacidade de libertação é limitada, é até um determinado ponto.
Eu escrevia sobre isso noutro dia, numa troca de email entre amigas. Falávamos sobre as diferenças existentes entre nós, algumas idealizações, algumas frustrações, etc. E eu, nesse email, refletia sobre os efeitos dessas "pressões" sociais. Na verdade, sobre os "ideias", essa fantasia que permeia a vida em sociedade. É o que os mais revoltados chamam de hipocrisia. Bem, voltando ao amor e o que tem ele a ver com tudo isso. Em primeiro lugar não acredito em distinção entre amor e amor verdadeiro... Amor é amor e se manifesta com roupagens variadas. Mas acho sim que podemos fazer escolhas, e por muitas vezes eliminamos uma forma de amar de nossas vidas por não não achá-las adequada às nossas escolhas, ou não considerarmos saudável aquela forma de amor. Mas muito difícil selecionar o que é amor, o que é carência, o que é instituição, convenções, masoquismo, enfim... o amor se mistura entre tantas outras coisas, e a maior parte de nós (pra não dizer que todos nós)não sabemos lidar com o amor puro e desconectado de todas as outras estruturas neuróticas que nos compõem.
Em segundo lugar, a vida social é marcada por um comportamento superficial que muitas vezes nos confundem. Por exemplo, quando encontramos um conhecido e ele nos pergunta sobre nossos filhos, sobre nossos casamentos, sobre nossa faamília, sobre nossos trabalhos - a não ser que tenhamos uma relação bastante íntima com aquela pessoa - costumamos dizer que está tudo bem! Contamos a deliciosa viagem que fizemos com nosso companheiro, a mudança de endereço para uma casa mais ampla, as conquistas dos nossos filhos na escola, enfim, falamos de coisas boas, e lindas, e "adeqaudas" para os assuntos em rodas sociais. As mães quando nascem os filhos, falam de amor, mas não falam das fraldas sujas, das noites sem dormir, do esgotamento e da falta de libido que afeta a relação do casal. Alguém fala disso???? Ninguém! Então quando acontce com a gente, pensamos que estamos com algum problema sério, que nosso casamento não é feliz, que nosso companheiro não é tão legal assim, que não somos boas mães, e por aí vai... Tentando conluir... Acho que essas fantasias de ideais são responsáveis, em boa parte, por essas frustrações que rodeiam as relações amorosas. Essa insatisfação eterna é intensificada por uma crença de que haverá um amor que seja o verdadeiro - que será aquele que completa. Esse tema dá pano pra manga... É um bom assunto para um encontro e debates infinitos. Eu adoro!
Se ainda tiver o filme, pode me emprestar? Beijo,