Registros inconscientes


Eu tenho uma profunda admiração pelo Freud, acredito que o motivo mais relevante foi ele ter trazido luz a teoria psicanalítica. Uma pessoa que enfrenta a sociedade da época para divulgar teorias tão avançadas merece o nosso respeito. Estendo também a minha admiração aos seus precursores que aprimoraram e defenderam tais teorias.
Relendo sua obra cheguei a Inibições, sintomas e angustia. Sempre me apaixono pela forma didática como publicou seus escritos, acho tudo muito bem explicado. Resolvi passar aos leitores que me dão o prazer de ler meus textos, de forma bem acessível, uma visão resumida de uma teoria psicanalítica, “O retorno do recalcado”, que seria nada mais, nada menos, que o retorno com força dobrada de significantes jogados no campo do Inconsciente, resumindo a grosso modo. Na verdade Freud reconhece que não é o inventor do “recalque”*, mas seria este o pilar da psicanálise,o seu elemento mais essencial.
Ao longo de nossa vida nos registramos os fatos de nossa história. Alguns destes fatos são jogados no Inconsciente, no lado escuro, não acessível da memória. Geralmente são coisas que gostaríamos mesmo de esquecer, deixar no escuro. Mais tarde estes registros podem vir à tona, e isso pode acontecer em uma sessão de análise através do discurso livre de idéias, nos sonhos ou como um sintoma. Por isso, fazer análise é tão difícil. A psicanálise mexe diretamente nestes conteúdos e é difícil encará-los, é como ter medo de escuro e ser obrigado a entrar em uma sala, antes escura, acender as luzes e encarar todos os monstros que não sabemos lidar, aqueles que julgávamos não conhecer, acreditávamos até que não existiam. Vamos exterminá-los? Não, diria que vamos domesticá-los, aprender a conviver com eles e entender que não são monstros, mas pedaços da gente, da nossa história e agora diante de nós com uma maturidade psíquica maior.
Quando o psicanalista finaliza um processo terapêutico ele não quer dizer que o paciente está curado, o que é cura afinal? Ao finalizar este processo, o psicanalista está dizendo ao paciente que ele tem condições de lidar com seus conteúdos, que a sua sala de monstros já está organizada e isso não impede o Inconsciente de mandar novos registros esquecidos**, mas que o paciente vai ter condições de estar em frente a eles e trabalhar esta nova e ao mesmo tempo tão antiga bagagem.
Estes conteúdos do Inconsciente podem retornar em forma de sintoma. Uma situação X desencadeia uma falta de ar, alguma coisa que seria um reflexo mais psíquico do que físico, claro que podem sinalizar de forma física mesmo, como tremores, dores no peito, sensação de formigamento, vômitos, diarréias (vários outros sintomas), mas isso, claro, sem nenhum fundamento orgânico. Acontece quando o corpo não comporta mais os tormentos psíquicos. Isso não é loucura, não é psicose, claro que pode ser, mas os neuróticos mais básicos passam pelo “retorno do recalcado”. Todos nós temos registros no Inconsciente que mais dia menos dia podem vir à tona. É essa a nossa bagagem, cada um tem uma forma de reagir diante dos acontecimentos: alguns preferem resolver ali, na hora, outros preferem jogar para debaixo do tapete.
Exemplo básico, uma criança de dois anos presencia uma cena de briga entre os pais, o pai aponta uma faca para a mãe, esta pega a criança e consegue fugir. A criança cresce com medo de faca sem entender bem porque, jogou aquela cena no inconsciente, tinha apenas dois anos. Mais tarde presenciou uma briga de bar, não estava envolvido, mas viu um puxar uma faca para o outro. Desde então tem falta de ar ao anoitecer, sente dormência nos braços e mais alguns sintomas, ou seja, seus conteúdos vieram à luz e precisam ser trabalhados, gerou uma angústia que precisa ser aliviada, extirpada.
O psicanalista nada mais é do que um grande pai e mãe, que nos ensinam a arrumar nossas malas e nos acolhem quando surge um objeto surpresa que não gostaríamos de carregar.


* Na linguagem comum, a palavra recalque designa o ato de fazer recuar ou de rechaçar alguém ou alguma coisa. –Dicionário de psicanálise, Elisabete Roudinesco e Michel Plon. ** É o que chamamos de “retorno do recalcado”, ou seja, o recalcado, o esquecido, retorna, volta a luz, ao consciente.

Comentários

Anônimo disse…
Leila, beleza de texto. Gosto de sua escrita. Acho que hoje a noite sofri um desses sintomas: não consegui dormir sentido palpitações e meus pensamentos estavam no episódio final de Lost. Parece idiotice, mas o fato de estarem todos os personagens mortos a série toda (6 anos) me fizeram imaginar se não estava morto e achando que estava vivendo uma vida normal... que no final era o que acontecia com eles (na ilha ou fora dela). Evidentemente é o medo inconsciente da morte, do desconhecido e do descontrole.

Boa sessão de terapia!

Beijos, prima.

Fabiano
Leila Viana disse…
Primo, na verdade isso não parece idiota. É impressionante como filmes, seriados mexem com a gente, mexem no nosso ponto de indentificação. Quando acabou "Friends" me senti orfã de amigos. É este o motivo pelo qual trabalho com meus pacientes através de filmes, é uma forma de colocar conteúdos pra fora, trabalhar os pontos chaves.A morte é realmente o simbolo destes significantes que vc comentou:Desconhecido e descontrole, afinal ela simboliza bem esta coisa de que no fundo não temos controle de nada e nem sabemos para onde vamos, existem só especulações. Surge daí nossas inúmeras questões sobre a vida. Obrigada por sempre estar presente e prestigiar os meus textos. Bj, saudade.Leila
O que REPRIMI... Esse é mais um elemento que temos conhecimento consciente, somente depois que procuramos nos conhecer.

Como poderíamos imaginar que algo em nós foi transformado, por exemplo, naquele medo pavoroso, descabido, desproporcional, à beira do irracional, teriam suas justificativas num recalque? E o que recalcamos? Qual a circunstância desagradável que o nosso ego quis nos proteger?

Essa nossa mente!... Cheia de labirintos comanda por nosso ego sempre a procura de nos defender e cria as mais fantásticas peripécias para nos livrar do sofrimento!

Não é fácil se conhecer! Temos que encarar nossos monstros, levantar o tapete, limpar os armários, parar de fugir!

Precisamos muitas vezes de ajuda para isso, mesmo assim não é fácil. Não é fácil encontrar com o que foi escondido de nós mesmos e por nós mesmos, ao ponto de não ter em nossa consciência o seu registro. Chega ser assustador esse encontro. Talvez seja por isso que existem aqueles que não querem, de forma alguma, fazer uma terapia.

Estarei encontrando não o que recalquei, mas encontrarei com alguém inesperado, encontrarei comigo mesma. Uma EU já esquecida em meu inconsciente.

As justificativas a esse ‘esquecimento’ pertencem ao domínio de uma lógica que só aquela mente, daquela época, naquelas circunstâncias poderá dar sentido lógico dentro de todo seu contexto.

O que escondi? Ou melhor: O que transformei para não sofrer? O que recalquei?

É certo que ao sermos confrontados numa situação de perigo nosso reflexo instintivo nos oferece duas opções: ou Enfrentamos (lutamos), ou Fugimos. Nas duas formas estamos nos protegendo. Do que me protegi?

Acredito que ao nos escondemos de nós mesmos, passamos a acreditar no que nos deixa mais confortáveis, pelo simples medo nosso ego vai nos proteger.
Leila Viana disse…
Ás vezes não é nada tão escraboso, depende do olhar de cada um. Dois irmão podem passar pelo mesmo trauma familiar e um processa bem certa cena, ou situação, o outro recalca.
Se recalcou é realmente porque não queria luz naquilo e é um dos motivos básico que muitos não querem fazer análise. O que não resolve porque este recalcado pode surgir em forma de sintoma, sonho recorrente que incomoda até ser tratado.
Obrigada pela contribuição, beijos.
Ana Cabral disse…
Leila, adorei esse post. Sabe?! Muitas pessoas não entendem bem o que é o trabalho no divã. Nesse seu post, você foi muito bem sucedida nessa explicação. Da próximna vez que alguém tiver dúvidas, ou indicar esse texto seu!
Sempre digo que o trabalho da análise é o de dar nova interpretação a supostos fatos que armazenamos. Como você bem disse, tudo depende da interpretação que damos aos acontecimentos -por isso filhos diferentes reagem de modo diferente.
Quanto aos filmes, concordo também como excelente metodologia para ativar esses registros recalcados. Por isso, em que pese desconhecer os teóricos da psicanálise, suponho ser explosiva (no sentido positivo) a mistura de Freud e Jung. É que os filmes são representações simbólicas, o que suponho ser a ferramenta mais adequada para comunicar-se com esses registros inconscientes... Não é que fazemso com as crianças e os contos de fadas?!
Adoro seus posts porque sempre me ativam. Me fazem viajar e dar vazão a temas que muitas vezes não encontram espaço na minha rotina de apenas reter informações...rss... Beijos!
Leila Viana disse…
Ana, que bom que atingi meu objetivo. Fiquei em dúvida se publicaria este post porque eu simplifiquei demais a coisa da psicanalise, divã justamente para liberar o acesso da teoria em uma linguagem mais usual. Agradeço a indicação do meu texto como referência. Estou trabalhando em um projeto com contos de fadas para adultos, espero que ele prospere, não sei se o Bruno comentou com vc sobre isso, mas acho que vc vai gostar. Quando estiver tudo registrado eu coloco alguma coisa aqui.
Adoro as coisas que vc escreve também, sou leitora assidua do seu blog.
Beijos!!!!

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