Origem simbiótica
Dizem, segundo lenda e mitos, que nossos corações foram divididos e a partir daí um começa a buscar o outro para ter a sensação de completude do ser. Isso é retratado em vários filmes e até historinhas reais de pessoas próximas. O livro, Jung e o tarô de Sallie Nichols*, aborda Jung, mitos, arquétipos e coisas assim. Travando um diálogo com arquétipo do tarô, pouco compreensível e que se julga muito importante, a autora questiona diante da postura tão impositiva, embora sábia e necessária do arquétipo: Se és tão importante porque é o número 2 e não um 1? E obtém como resposta que o 1 não é nada sem o 2. “Até o Todo-Poderoso ficaria impotente com um só, inclusive precisou das duas pernas do compasso para concluir sua obra, uma perna que fixa e estabiliza o seu centro e a outra que descreve a circunferência. Para fazer um todo é indispensável o dois.”
Logo, para os que pensam que a necessidade que as pessoas têm de casar ou estar com alguém, seja algo imposto pela sociedade pode estar enganado. Isso se explica não só através dos mitos, mas também através da vida real e palpável. A sociedade contribui para aumentar nossas neuras: cobra-se sempre um outro, um namoro, um casamento, cobra-se filhos, emprego, tudo para colocar a pessoa naquele quadradinho social. Mas a nossa sensação de incompletude é mais profunda, ela é reforçada pela sociedade impositiva e questionadora, embora não seja raiz de tudo, apenas o reforço. Segundo a psicanálise, a visão do bebê, nos primeiro meses de vida, é ele e a mãe como um objeto só. Na barriga da mãe ele faz parte do corpo, é uma ligação simbiótica. Segundo Lacan, quando perde o seio (objeto de desejo) a criança entende que ele e a mãe são seres diferentes. Podemos estender isso para a teoria da castração: o bebê perde o seio da mãe e se vê como ser só, partido, dividido do corpo da mãe. Depois desta separação, o que eu chamaria de primeira castração, surge à segunda castração, que é a mais clássica, quando a criança percebe que as relações parentais são amores impossíveis, assim o indivíduo sai em busca do seu complemento fora do ambiente familiar. Se esta castração foi bem feita, bem resolvida, dá-se a busca do amor saudável: vestido de sua singularidade o sujeito passa a buscar o seu objeto de desejo, caso contrário se a castração não foi feita ou mal resolvida, busca-se a imagem e semelhança dos pais. Junto com esta acontece todos os problemas que pode-se dar em relação a isso.
Aquele aconchego no colo da mãe, aquela sensação de ser um só ser... é esta a essência do amor romântico, é este o gosto que buscamos no outro: o se sentir protegido, inatingível, completo, único para o nosso objeto de desejo. O outro sacia nossos desejos, nos complementa, como foi a mãe nos primórdios da nossa existência. É esta a sensação buscada, ansiada. Aí a paixão passa, instaura-se o amor: é qundo experimentamos então a mesma sensação do bebê quando perde o seio da mãe, objeto de desejo e, descobre que não são um ser único, são dois, com suas singularidades. Passa-se a enxergar todo um mundo ao redor, onde antes só existiam eles(mãe e bebê) de forma simbiótica. Muitos se sentem frustrados, abandonados, quando o outro sai da posição simbiótica, para a posição independente do ser.
A independência não simboliza o desamor. Perceber que existe vida além do romantismo do começo simboliza justamente que o amor chegou, se instaurou, respira-se, inicia aí a parte saudável da relação. Adão e Eva não agüentaram o paraíso a dois em que viviam. A natureza humana é assim, precisa de liberdade, de um espaço. É bom ler um livro no silencio do vazio, da solidão, assistir um filme que o outro não gosta. Eu costumo falar que o segredo da relação está em ter os meus amigos, os seus amigos e os nossos. E isso se estende para o mundo que cada um vive, às vezes, é preciso estar na solidão do seu mundo e então, dentro da relação, precisa-se viver o meu mundo, o seu mundo e o nosso. Claro que tudo isso embasado na confiança e na lealdade. Este é o amor saudável, mas a confiança é alicerce porque se perdida uma vez, precisa saber ser mestre em restaurá-la ou nunca mais irá reencontrá-la.
Boa sorte a todos na busca da sua outra metade (se é que ela existe). E se desconfiarem que não foram castrados, busquem suas terapias. Assim, não se perde tempo passeando por aí procurando homens casados, problemáticos ou uma mulher dominadora, passional e, quem sabe, até muito maternal em vez de ser MULHER.
Comentários
Seu texto me remete a reflexões que já, de alguma forma, falamos através do divã.
Essa 'teoria' de que precisamos do outro, de uma outra parte, de um complemento, em muitos momentos remete a um reforço do que a sociedade castradora e formatada nos coloca. Quem não consegue viver sozinho, mesmo que por algum tempo? E até mesmo, quem tem sempre que estar com o Outro para ser alguem?
Na minha experiência, vejo que o segredo da existência 'salutar' é conseguir conviver com o EU, se entender, mesmo com todos os fantasmas que por ventura apareçam.
Claro que o OUTRO é fundamental, mas em dimensões sociais, reprodutivas, entre outras.
O equilíbrio é o que devemos procurar, não abortando a possibilidade conviver com o EU, para que através disso possamos crescer. E não depender do OUTRO para ser feliz.
Difícil né? Mas creio ser possível.
Abraços,
Marcelo
Fabiano
Gostei muito, muito mesmo, de seu texto. Você arrasou!
Como não podia deixar de ser, tudo acaba em Freud.
Vivemos uma simbiose e somos felizes. Depois sofremos quando vemos que somos só o EU e nossa mãe é o outro, que não somos mais um. Por conta disso passamos o resto da vida á procura de viver a eterna felicidade... Então vem outro sofrimento: as fazes (sofridas) do Édipo. Será que fomos castrados? Minha teoria é a seguinte: Se você procura sua metade, acho melhor procurar um terapeuta, você não foi castrado. Concorda? (rs)
Bjs.
Quanto a parte do outro, ou do “dois”, acho que podemos separar as coisas. 1) A sociedade cobra que tenhamos um outro e que a relação entre o um e o outro se estabeleça dentro de um determinado padrão. E acrescenta a idéia de que se atendido esse padrão, haverá uma completude plena e satisfatória. 2) Concordo que essa busca do outro possa estar na essência do ser, ou seja, anterior à sociedade. Mas não sei se há um outro que complementa esse vazio. Esse vazio é mais amplo. 3) Fazendo uma interseção do ponto 1 e 2: a sociedade nos faz crer - e isso com certeza compõe nossos arquétipos – que o outro pode completar essa sensação de vazio. Eu acredito que essa fantasia estimula a sensação de frustração nas relações a dois. É como você disse no texto, as pessoas buscam no outro a plenitude que lhe faltam. Esperam que o outro seja a solução de seus vazios. Daí, só fazem aumentar o próprio vazio...
Acho que li seu texto influenciada por um outro que acabo de ler, e aproveito pra indicar: http://medeiroskellen.blogspot.com/
Beijos!
PS: Entre uma lei e outra, passo por aqui pra me alimentar dessas coisas da vida...