Cuidar ou ser cuidado

Tenho percebido que a vida em determinados aspectos coloca-nos diante de dois caminhos. Por exemplo, nossos pais, que são nossos espelhos, nosso ponto de referência em que trabalhamos analiticamente como ponto de identificação. Muitas vezes, vemo-nos repetindo comportamentos que abominamos em nossos pais algum dia. É uma repetição de certa forma inconsciente. Nessa situação, os dois caminhos são: repetimos comportamentos familiares ou negamos completamente. Exemplo: Um pai que mente compulsivamente nas coisas mais bobas do cotidiano pode ter filhos que adoram este comportamento e repetem isso no seu dia a dia, e outros filhos que odeiam mentira e recusam-se a praticá-la mesmo que na maneira mais inocente por ter verdadeira ojeriza àquele comportamento paterno.
Mas a escolha que venho desenvolver neste texto é a questão do cuidar ou ser cuidado. Pode soar radical este “ou”, mas é real. Muita gente pode falar que gosta de cuidar “E” ser cuidado, mas existe uma necessidade mais aguçada dentro destes dois determinantes. Uma pessoa que teve um pai alcoólatra pode desenvolver uma enorme compaixão pelas pessoas que necessitam de ser cuidadas. Desde criança, desenvolve um papel maternal daquele pai. Pai que, quando estava sóbrio e caía em si sobre os estragos da sua bebedeira, ficava cabisbaixo e com cara de cachorro sem dono. Só quem convive com os dependentes químicos sabe visualizar o que estou explanando. Desenvolvendo seu lado maternal desde criança, cresce com esta necessidade de cuidar e provavelmente atrairá para seu meio pessoas que necessitam destes cuidados, sejam amigos ou amores. Aí mora o perigo... amores problemáticos, carentes, que sugam até seu último fiasco de luz. Tem que ter uma destreza absurda para saber usar esta necessidade de cuidar a seu favor. Provavelmente, exercerá profissões em que possa descarregar a grande porção cuidadora.
Um outro aspecto que merece a nossa atenção. Estas pessoas cuidadoras podem também estar procurando aprovação alheia. Querem sentir-se úteis. Fazerem-se presentes no mundo. Serem reconhecidos. Entra em cena a questão da autoestima. Claro que uma coisa puxa a outra, mas não é uma regra As pessoas não são como receitas de bolo em que se juntam os ingredientes e dá tudo a mesma coisa.
Em contra partida, a mesma filha do alcoólatra pode desenvolver mais o seu lado frágil e enveredar pelo caminho do ser cuidado. É provável que admire o homem ou a mulher que sejam bem resolvidos, independentes, controladores. Desenvolvendo isso pela vida, vai encontrar pessoas fortes, que querem dominar, tomar conta, assumir o controle. Deparamos mais uma vez com uma questão de autoestima, onde você não se mostra capaz de tomar as rédeas da sua própria vida. Acontece muito com filhos de mãe (ou pai) super protetora que criam filhos dependentes e que mais tarde, por sentirem-se incapazes de realizar as coisas sozinhos, acabam, substituindo o ser de quem depende por outra pessoa.
Mais uma vez caímos no ponto da autoestima. Filhos de mães super protetoras podem ter baixa autoestima porque não se sentem capazes sem o “outro” para guiá-los, apoiá-los. A autoestima tem seus altos e baixos. Há fases em que elas estão lá em cima e outras lá em baixo. Depende muito da fase, do dia, do que se está vivendo. Existem até pessoas que tem uma super autoestima quando se trata da profissão, mas, quando se trata de amor, o aspecto é diferente.
Cuidador ou cuidado são perfis que têm seus lados negativos e positivos e devemos estar atentos para transformar o potencial a nosso favor. Todos desempenhamos bem um papel e, como tudo na vida, há os dois lados da moeda e devemos estar atentos para o que atraímos com isso e o que faremos com as necessidades que fazem parte da nossa história. Neste caso, os opostos se atraem e convivem muito bem, como um encaixe. Duas pessoas que precisam ser cuidadas juntas não conseguem seguir adiante porque uma não preenche a outra e o mesmo acontece com duas pessoas que gostam de cuidar... Fica evidente que cuidador e cuidado se completam e sabendo conduzir suas necessidades acabam ajustando sua felicidade.'
Como uma boa psicanalista sou uma cuidadora. Canalizo isso na minha profissão, mas, desde muito cedo, era algo evidente em mim. Acho que os momentos em que nós cuidadoras permitimos ser cuidadas são breves momentos de descanso para o nosso espírito, mas não duram muito e voltamos a desenvolver o papel que nos esmeramos em desenvolver no decorrer da vida

Comentários

Anônimo disse…
Achei interessante o texto, mas a pergunta que me veio é não ha' um espaço de equilibrio possivel? Quero dizer, todas as crianças são resultado da aprovação ou desaprovação aos seus pais? E as crianças que vem de familias que equilibravam o cuidar e ser cuidado? Elas poderão fazer ambas as coisas? Serão elas as unicas? E nossa capacidade na vida adulta de escolher como vamos viver, apesar de nossas familias, ou indiferente delas... não como uma resposta à familia, mas à vida. Que tipo de vida quero levar? Que tipo de mundo quero construir? E não apenas à partir da experiência de vida de sua familia.
Eu entendo o seu pontro e basta olharmos ao lado ou no espelho para vermos isto, mas não é meio limitante se é a isto que se resume à experiência da humanidade?


Leila Viana disse…
Ana, em uma abordagem psicanalitica é muito difícil a gente fugir da experiência da vida familiar. Aí eu tenho que perguntar para minhas amigas psicologas o que elas teriam a dizer. A psicanalise busca muito as referências infantis, claro que esta criança pode ter outro tipo de referência, mas que vem substituir de alguma forma as figuras parentais. Agente parte muito do consultório e lá me aparecem pessoas que desenvolve mais um lado do cuidar ou ser cuidado, assim como meus amigos, o que pode acontecer é aquele descanso do espírito que falo no final do texto, ou pessoas que conseguem fazer o seu melhor dentro de um destes dois lados. Minha mãe era uma super cuidadora, meu pai faz parte dos que são cuidados, minha irmã e eu partimos para o caminho do cuidador. Eu admirava MUITO minha mãe na infância, achava ela a mais bonita, a mais guerreira, a mais admirável, nossos confrontos começaram, como os da maioria, na adolescência. Logo a minha refêrencia foi a infância, foi o que cresci vendo. Meu pai eu admirava a sua profissão, o seu coração mas como estava no papel de cuidado eu queria cuidá-lo. Dentro da teoria psicanalitica na vida fazemos escolhas e estas são mais de acordo com a nossa personalidade que foi moldada mais de acordo com a nossas referências, logo a nossa história vai ser escrita por nós e por estas escolhas. A psicanalise chega a cometer o absurdo de falar que o autismo e a esquisofrenia são determinantes da criação dos pais, neste aspecto eu não cocordo, acredito mesmo na genética. Por isso escutamos muitas piadinhas do tipo: a culpa é sempre da mãe. Mas não esqueça que não precisamos repetir os pais, podemos negá-los também. E existem pontos que não tivemos referencias, logo construimos elas.Você conhece alguém que ora é cuidador e ora é cuidado?.Obrigada, saudade de você!Vou pedir para minhas amigas psicologas contribuirem com os seus questionamentos, de repente tem uma linha que fuja deste presuposto. A minha psicologa é comportamental e sem está apontando comportamentos meus positivos e negativos referente aos pais, mas como ela se diz simpatizante da psicanalise de repente... Bj
Anônimo disse…
Obrigada!
Acho que sempre existe uma justificativa para sermos como somos.
A família, o meio em que estamos inseridos, a época em que nascemos e uma série de coisas que vemos, tocamos, ouvimos, sentimos... Nossas experiências de um modo geral. Olha que ainda tem aqueles que dizem que temos influência de vidas passadas!
Assim sendo, somos realmente o produto de tudo que nos cerca. Mesmo quando não gostamos de nossas referências ou quando as reforçamos.
Não acredito que nos construímos sozinhos e que nos fazemos por nós mesmos.
Muito de nós bate no peito e diz: ...porque eu sou assim! Mas, e porque somos assim? E será que somos o que pensamos ser?
Minha opinião é que de fato, nem sabemos como somos. Os outros nos ajudam a nos perceber e às vezes nem isso acontece.
O autoconhecimento é uma tomada de consciências que nos apropriamos por deliberada vontade. E por ser dolorido, é melhor não ter consciência de si...
Voltando-me para o fato do cuidador e cuidado, é um dos assuntos que revela muito sobre as pessoas. E como foi dito por você, Leila, é o encaixe perfeito quando há esse encontro. O desejável é que esses encontros sejam saldáveis, do contrário é provável que essa relação gere uma codependência que é o que acontece em muitos casos.
Verônica Macedo disse…
Adore o tema e os comentários. Bjos, sucesso
Anônimo disse…
Aprendi uma receita de bolo com minha mãe. Sempre uso os mesmo ingredientes, tento reproduzir tudo como ela me ensinou, pra ficar tão gostoso quanto o dela!!!!
Mas, apesar de usar sempre os mesmos ingrediente, na sequencia certinha... Não sai igual ao dela... Mas meu marido quando come, diz que é igualzinho!!!!!!
kkkkkk
Clara Rohem disse…
Oi Leila... que saudade! Estava off, mas agora que voltei, vim cá te ver, rs. Bem... seu texto me deixou pensativa. Passei a vida me cuidando. Depois cuidei (e cuido) de outros. Mas acho que prefiro ME cuidar. E só. Mas isso é só um achismo, rs. Beijos

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