Amor, paixão e solidão

Parece que o mau da humanidade atualmente é a busca incessante pelo outro. Como diria a bossa nova: “ Fundamental é mesmo o amor, é impossível ser feliz sozinho.”Há uma incapacidade absoluta e generalizada de “estar só”. Há correntes fortíssimas que culpam os contos de fadas por inserir, desde a infância, a necessidade de uma outra pessoa que nos complete e faça-nos feliz. Ou seja, sozinhos não somos ninguém. Mas será que a culpa é mesmo dos contos de fadas? Será que o ser humano já não nasce com esta sensação de incompletude? Esta insatisfação eterna que nos obriga a buscar alguém ou algo que nos preencha? A busca do novo, a teoria da agregação, apreciação do diferente, a extensão do ser. Seja lá o que for, temos esta sensação de que ser sozinho não basta.
Existe sim, no romântico, a ideia da fusão, como dois se transformando em um. Há toda uma critica em cima disso, mas adquirem-se, sim, os hábitos dos que estão ali no mesmo ambiente diariamente. Há toda uma troca dentro deste convívio. De repente, a casa está do jeito dos dois. Um pouco de você, um pouco de mim e um pouco dos nossos filhos. Há, involuntariamente, uma contribuição generalizada. Seria um erro absoluto, no meio desta “fusão”, perder nossa singularidade. O ser único que sou eu enquanto indivíduo não pode se perder em prol de ninguém.
A teoria romântica da fusão existe enquanto existir a paixão, depois cada um retorna a seu mundo particular e se encontra nas intercessões. Quem acha que o amor é monótono e chato está muito enganado. No amor, conseguimos viver nossa individualidade e, ao mesmo tempo, estar receptivo ao que a metade da minha laranja está trazendo para o lado de cá. Dentro desta nova realidade que seria uma fase “pós paixão” não se sente mais frio na barriga ou emoções explosivas, surge o período maduro da relação, onde somos muito parecidos e ao mesmo tempo as diferenças estão gritando.
Vinícius de Moraes casou-se nove vezes. É um exemplo típico de quem não consegue viver o lado maduro do amor, de quem precisa de paixão como o ar que se respira. Morreu com mais de sessenta anos e viveu intensamente cada mulher que passou na sua história. Era um sedutor nato e conseguia oferecer, enquanto apaixonado, o mundo mais romântico e vívido que uma mulher poderia sonhar. Por conta desta personalidade, conseguiu servir o mundo com músicas e poesias belíssimas que o coloca em um nível elevado de poeta da nossa história. Tudo que escreveu exaltava o pico mais alto da paixão.“Eu sem você não tenho por quê. Porque sem você, não sei nem chorar... Sem você meu amor eu não sou ninguém”. Samba em prelúdio.
Voltando ao princípio: a solidão. Nascemos sozinhos e morremos sozinho, mas durante este intervalo de nascimento e morte desenvolvemos uma incapacidade absoluta de ser só.
A solidão assusta muita gente, sofre-se de solidão. Na mitologia, a solidão era como uma maldição, Quiron era um solitário, podia curar a dor dos outros, mas não sua própria dor. Nos contos de fadas, feliz é quem encontra o príncipe encantado, na literatura os heróis e reles seres humanos estão um busca do seu amor, nas novelas, no último capítulo já dão um jeito de arrumar alguém para aquele que parecia terminar sozinho.
A sociedade é cruel com os solitários. Aos solteirões já se arrumam apelidos pejorativos ou atribuí-se defeitos e comentários desagradáveis como: “ Por isso que estar só até hoje”. Mal sabem eles que os casados também têm seus temperamentos difíceis e, muitas vezes, invejam a leveza de ser solteiro. Há um doce saboroso na solidão, mas não fomos educados para ser sozinhos, para saborear este prazer. Vivemos em sociedade, precisamos de amigos, amores, barulho. Quando a casa está vazia, ligamos a televisão para nos fazer companhia. Há tanto para aprender com a solidão, mas o ser humano não aprendeu a apreciá-la, aprendeu a fugir dela e parece-me que todos os manuais dizem que sem o outro não somos ninguém.
Para não fugir da visão psicanalítica, aqueles que são bem resolvidos têm muito bem simbolizados seus objetos internos ou tiveram uma mãe suficientemente boa, um pai presente que conseguiu trazer uma boa referência na vida dos seus filhos. Conseguem estar bem com a sua solidão, conseguem absorver o melhor da capacidade de ser ou estar sozinho. Meu Deus, mas será que este ser existe? Somos uma complexidade com mães suficientemente boas e pais paredes ou vice-versa e nossos objetos não são tão bem simbolizados assim. Melanie Klein, bem vinda à realidade da sociedade atual. Somos seres com buracos profundos mirando estrelas inatingíveis e os bem resolvidos fazem parte de uma minoria esmagadora com seus IDs e EGOs lineares e não precisam de divã para exorcizar o medo da solidão.
Àqueles que estão na busca da outra metade digo para apreciar o que a vida está oferecendo. Se o amor ainda não aconteceu, deguste a sua solidão, aproveite para se conhecer, para fazer coisas que acompanhado será difícil e, quando estiver assim, em paz, com a sua pessoa, curtindo o prazer de viver você, vem a paixão e te laça. Ela acontece assim, nos nossos momentos de distração.
“Olha no espelho e só vê o amor, agora sabe que perdeu a paz. Jogou o laço e se prendeu, o inesperado aconteceu, a vez da caça e hora do caçador.” (A hora e a vez de Boca Livre)

Comentários

Verônica Macedo disse…
Estou sem palavras com seu texto, minha amiga. Sentimentos diversos foram despertados em mim. Talvez porque você me conheça tão bem, talvez porque conversamos tanto sobre essa questão da paixão.. do Vinícius.. da diferença do amor.. Amei seu texto. Engraçada a parte que fala da galera com EGOs tão inflados que sim, esses não sentem precisar de ninguém... mas ai parecem também pessoas estranhas perto dos outros.. ou não...apesar de tudo, a questão continua: por que será que precisamos tanto de alguém? Beijo
Leila Viana disse…
V. para o psicanalista é uma honra tocar o outro com palavras! Adorei você ter gostado. Beijo amiga!
Leila Viana disse…
ANA CABRAL Via Facebook:
Adorei o texto, Leila. Eu estive pensando sobre algo parecido nesses dias. Por meu momento. Estava pensando que quando saímos de uma relação ficamos doídos demais. É um momento de se reconstruir, porque mesmo mantendo a própria singularidade dentro da relação, nos "contaminamos" (no bom e no mau sentido) com o outro. Aí, quando estamos, finalmente, inteiros, a danada da paixão surge e nos golpeia.
A paixão dilata o campo de permissão para entrada do outro nas nossas vidas, nos nossos cotidianos, até pequenas coisas como preferências culinárias ou musicais, manias até. E quando a paixão se dilui (não necessariamente acaba) há um certo sentimento de solidão novamente. Porque o fervor cessa ou reduz, e o outro não é mais o bastante. (Ainda bem que a paixão não é eterna, né?!) Voltamos a nós, à todas as nossas outras necessidades e desejos, e o retorno do questionamento: quem sou eu, agora, na versão dentro dessa relação, com esse outro. E, claro, como você descreveu muito bem: "Há, involuntariamente, uma contribuição generalizada.”
Se por um lado, como você disse: “Seria um erro absoluto, no meio desta “fusão”, perder nossa singularidade". Por outro, seria utópico manter-se intacto à intersecção com o outro.
Pensei aqui agora, esses Vinícius, viciados no fogo alto da paixão, se não conseguem se singularizar enquanto solteiros, tão pouco suportariam o mesmo processo na intersecção com o outro.
Talvez a dificuldade de amar maduramente não esteja em aceitar a condição de estar sem par, mas em conseguir encontrar-se nesse emaranhado que torna a vida a dois.
Ampliando a análise, com paixões mais suaves ou não (paixão aqui não no sentido estrito do romântico), é o que vivemos no ir e vir de todas as relações: trabalhos, amigos, vizinhos, familiares, vida e morte... Identificar-se nesse emaranhado de relações que é viver.
Beijos
Pois é Dona Leila...
Acho que você cercou muito bem esse assunto, vou dizer o que mais? Você vai do céu ao inferno. Em todo caso, fico com a ideia da possibilidade de sermos bem resolvidos, com todos os pré-requisitos colocados por Freud, coisinha muito simples para famílias ‘margarina’. Educam-nos, e nem nos questionamos o que e porque pensamos assim ou assado.
Assim, vamos vivendo o grande dilema, entre o desejo de simbiose e o desejo de liberdade. Desse modo, vez por outra nos contradizemos ai pensamos: ...é amor... Só que não.
É fato que as pessoas querem viver com satisfação e prazer uma vida a dois. Isso complica quando é uma necessidade. É como precisar de algo que nos prenda a vida, em vez de escolher o contrário. Já ouvi dizer que a pessoa se apaixona pelo estado de está apaixonado, não vem ao caso quem seja o outro, pois o objeto da paixão é o estado da paixão.
Mas como você mesma diz, se não houver essa condição de viver assim sozinha, não haverá ninguém que seja o par perfeito. Gostar da própria companhia é pré-requisito pra escolher estar acompanhado ou não. Se, se é inteiro, estar com alguém será uma escolha.
Conheço uma pessoa que simplesmente rir quando se fala de amor romântico. Aquilo me incomodava, porque eu dizia pra mim mesma, e queria acreditar, que é possível e eu não queria me desfazer dessa ideia... Aquilo me intrigava! Eu não entendia esse riso, a muito custo consegui desvendá-lo... O fato é que hoje eu também tenho aquele mesmo sorriso, mais discreto, é claro! ...rs... (sempre que possível, é claro, até mesmo pra não chocar! ...rs..).
Leila Viana disse…
Jaque, ótimo seu comentário, e bem complementar. O que tenho a dizer sobre o sorriso irônico ao amor romântico dos outros: Acredito que todos nós, com a idade, acabamos perdendo esta crença, mas, se haverá um sorriso discreto, escancarado ou mesmo uma apreciação relacionado a fusão que o outro está vivendo vai depender da história de cada um.Eu, pessoalmente, ora dou meu sorriso discreto, ora aprecio o romantismo exacerbado com uma vontade de dizer: "Aproveite cada segundo porque isso passa!" Adoro a maturidade da minha relação! Bj, você é boa em tarefas de casa porque fez duas em uma só. Depois te explico.rs

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