Conscientize-se


T
enho me deparado muito com uma palavra chave de uns tempos para cá: Consciência. No processo terapêutico, o primeiro passo é a consciência. Alguns pacientes já chegam “conscientes” do que seria um problema. Outros chegam com a perspectiva de se conhecerem e vão tomando “consciência” durante a primeira parte do processo. A maior parte das coisas que nos causam insatisfação depende do nosso movimento para que alguma coisa mude. Na maioria dos casos, ao menos, uma parte depende da gente.


O que é mais difícil: depender de nós mesmos ou do outro? C ada um vai explicar de maneira pessoal a sua alternativa. Eu diria que estar na mão de um outro é mais difícil, depender do movimento do outro é mais complicado. Embora o comodista adore que o outro faça o movimento para que não precise partir dele a ação. Isso é cômodo, mas tem um preço altíssimo e uma hora a conta bate na porta. Seja uma cobrança da vida ou do fornecedor.

As pessoas acham que fazer terapia dói. Dói mesmo e já começa nesse primeiro processo. Tomar consciência dói, porque gera angustia e obriga o movimento. O que elas não sabem (ou sabem e adiam) é que essa consciência vai aparecer de uma maneira ou de outra. Este movimento é o mais difícil, muitos são obrigados a sair da poltrona confortável para tomar atitudes e isso inclui responsabilizar-se por si mesmo, parar de responsabilizar um outro por nossos ganhos e nossas perdas. A vida é feita de escolhas e é preciso estar atento às consequências.

A partir do momento que se adquire consciência, o movimento é a palavra de ordem. As pessoas reclamam muito das angustias, insatisfações, infelicidades, mas são elas que nos movem, que nos levam para frente. Por exemplo, se existe um problema de relacionamento e durante o processo terapêutico descobre-se a sua parcela de culpa em todo aquele contexto (em uma separação cada uma das partes tem sua parcela de culpa).

Não dá mais para ficar de camarote observando o que o outro está fazendo de errado. O espelho foi colocado na sua frente para que consiga ver, também, as suas imperfeições. Daí urge o movimento. Vai sair do camarote e partir para o ato. Como é difícil este processo de revisão, reconhecimento e mudança.

De fora é muito fácil enxergar o que o outro precisa mudar para reestruturar a relação, porque, de fora, temos a visão do todo. Mas aqui, em nós, só conseguimos ver as partes. Por isso a importância do espelho.

Outro exemplo. Há um tempo comecei uma reeducação alimentar, e para fazer diferente comecei a ler livros sobre alimentação. Por quê? Para que eu tome consciência do mal que determinados alimentos podem fazer para o meu organismo. A partir do momento em que eu tenho esta consciência, vou pensar duas vezes antes de ingerir o que trará consequências danosas para a minha saúde.

Problema financeiro, falta de estabilidade? Estude, passe em um concurso, faça uma especialização para mudar de salário. Está com dores, tome os remédios, faça tratamento necessário. Está gordo, está magro, alimente-se de forma adequada. O casamento está ruim? Seja mais generoso, romântico, aprenda a ceder, aprenda a não ceder tanto. Não adianta? Separe-se. Quer um namorado? Cuide-se, vá a luta.

Tudo se resume em conscientizar-se e movimentar-se, muito depende de você.

Comentários

Excelente reflexão! Faço algumas considerações a algumas palavras, que fora do domínio profissional tornam-se precisas ou expansivas. Mas, que não altera em nada ou quase nada, tudo que foi observado no texto ‘Conscientizar-se’.
Como terapeuta você diz que nesse processo o primeiro passo é conscientizar-se. Fora do setting, no meu olhar, vem primeiro a vontade (palavra também muito abrangente) ou a aceitação, ou a coragem. Muitos têm plena consciência, de todo embrólio de sua vida, mas tem uma ‘vontade’ bem conveniente. Acreditam ser um bom diretor e não um mero ator, como os demais, no teatro da vida.
Fazer terapia dói muito, mesmo. E nesse lugar não dá pra administrar ou ‘dirigir’ a angustia. O desconforto é tão grande que para alguns é melhor desistir. E nem a plena consciência de toda a necessidade de trabalhar o que deve fazer para melhorar não é o bastante para fazer algo.
Assim como você deu o exemplo de uma leitura mais aprofundada sobre um assunto, para depois partir para uma ação baseada numa lógica, que leva a um comportamento fundamentado em princípios racionais, teorias, amparo científico, conhecimento consciente etc., darei alguns contraexemplos. Digo, que mais que conscientizar, deve haver algum outro ingrediente para se tornar gatilho dessa ‘consciência’ e transforma-la em movimento.
Você já viu diabético que não se cuida? Pessoas que transam sem camisinha, que engravidam ou se arriscam nas DSTs? Mulher que apanha e não larga o marido? Etc. etc. etc. Será que são casos de inconsciência?
Não satisfeita fui ao pai dos burros: consciência
cons.ci.ên.cia
sf (lat conscientia) 1 Capacidade que o homem tem de conhecer valores e mandamentos morais e aplicá-los nas diferentes situações. 2 Rel Testemunho ou julgamento secreto da alma, aprovando ou reprovando os nossos atos. 3 Cuidado extremo com que se executa um trabalho. 4 Honradez, retidão. 5 Conhecimento.6 Psicol Percepção imediata da própria experiência; capacidade de percepção em geral. Com a mão na consciência: com sinceridade. Meter a mão na consciência: examinar bem os próprios atos ou sentimentos. Ter consciência:ser incapaz de uma indignidade. Ter a consciência elástica: não ser muito escrupuloso. Ter a consciência limpa: estar convencido de haver procedido bem.
Acredito que a consciência é necessária, mas não o suficiente. Como você fala, muito depende da pessoa, conscientizar-se e movimentar-se. Digo que com terapia é sofrido, sem terapia é difícil começar o movimento.

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