A primeira castração


Quando o bebê nasce, o acolhimento é primordial. É necessário atenção exclusiva ou o buraco do não acolhimento causará danos irreparáveis na vida adulta. O nascimento é como a morte: o bebê sai de um lugar escuro, quentinho, onde recebe comida a todo momento; de repente, não cabe mais ali, algo se rompe e ele vem para o frio, para uma luz forte que incomoda e respirar dói (acredito ser uma experiência muito parecida com a morte defendida por algumas religiões). Por isso o acolhimento é imprescindível. Para o bebê, até por volta dos 4 meses, ele e a mãe são um ser só. Ele não consegue enxergar uma divisão e essa separação pode ser bem traumática se for rompida antes do tempo.


É muito saudável viver isso por um tempo. É necessário, mas, há um momento, que o DESEJO DO PAI salva a mãe e o filho dessa simbiose. Não é um pai qualquer, é um pai desejoso daquela mulher. Quer tê-la de volta, quer delimitar o espaço de cada um na relação. “Dá licença que essa mulher é minha.” O tempo em que isso acontece depende da dinâmica e do desejo de cada um. Essa primeira castração é importante para que a vida tome um sentido mais saudável para a tríade pai, mãe e filho.

O bebê é narcísico. Ele vai querer a mãe só para ele. Nesse período, a vida gira em torno da VOSSA MAJESTADE O BEBÊ. É preciso que seja assim. É de extrema importância que sinta-se suprido, mas é necessário que isso tenha um limite. As crianças que crescem sem limites não aprendem a desejar, não sabem o que é ser agraciado com um desejo, com algo esperado. Vivem o imediatismo e assim não vão saborear o quão é prazeroso desejar. Como sacos sem fundos, onde nenhum afeto pode preencher o vazio.

O pai é a LEI, embora isso pareça machista, é bastante simbólico. A mãe está envolvida na simbiose, não consegue enxergar o todo. Lançando um olhar mais lacaniano, poderíamos dizer que o pai é o rolo compressor que impede a mãe de abocanhar o filho. Esse abocanhar quer dizer eternizar a simbiose.

A paixão acontece, também, de maneira simbiótica. Você e o outro são um ser só. Vive-se um pelo outro. Pra sempre é uma realidade, estão inebriados, encantados, temos a mesma sensação da relação mãe e filho nos primeiros meses de vida.

Como um resgate de um tempo vivido de forma tão prazerosa, tão acolhedora, tão envolvente. Vive-se fora do mundo real. Ali só cabem duas pessoas, um ser só.

Depois de um tempo, percebe-se um mundo ao redor, começa-se a separar os dois universos, mas sempre ali bebendo um pouco do outro e vivenciando a relação, agora. Depois que percebem haver um mundo além, encontram-se de maneira mais saudável.


Sobre a superproteção. Mães super protetoras criam filhos inseguros. Acreditam que estão dando o melhor de si pelos seus filhos ao protegê-los de maneira exagerada, mas o melhor que podemos dar aos nossos filhos é o preparo para uma vida sem nós.

A superproteção passa para o filho a mensagem de que sozinho ele não aguenta as intempéries do mundo e isso vai refletir em tudo, na vida emocional, financeira, amorosa.  

Comentários

A primeira castração
Como seria bom se as pessoas que se propõem ser pai ou mãe pudessem ter acesso a esse conhecimento, infelizmente não acontece isso e ainda há aqueles que duvidam que isso se fundamente. Aventuram-se em se afirmarem orgulhosamente como “pãe” (Mãe e Pai em uma só pessoa). Como se isso fosse possível.
Sou feminista, e como entendendo como isso tudo funciona, adoro a expressão: O pai é a LEI ! Acho que foi isso que me deixou apaixonada pelo nosso querido Renato Dias Martino, porque ele é enfático! Não tem meias palavras. E a LEI, entendo, será um outro (não necessariamente de gêneros diferentes), mas que não seja ‘dois em um’. E ainda faço uma citação do professor Renato: “A necessidade afetiva paterna está muito além da simples presença física.” E como uma coisa puxa a outra, lembrei também de sua palestra sobre o texto de Guimarães Rosa, A terceira margem do rio.
Quantos não são contraventores da Lei?
Aguardo ansiosa pela sequencia dessa castração, a segunda e a terceira, para que fique bem castradinho! Rs...

Ps:. Acredito que esse vídeo vai lhe ajudar nas próximas considerações sobre a castração. https://www.facebook.com/video.php?v=717283604995744
Leila Viana disse…
Jacq, vou fazer estes dois textos para que fique bem castradinho rs.

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