Ciúmes - Texto de Leila Viana e Renato Dias Martino


C
iúmes é um assunto recorrente em consultórios de atendimento psicoterapêutico. Um sentimento que pode ser sinal de uma simples neurose confundido pelos românticos como sintoma de amor profundo, ou ser a revelação de uma paranoia muito próximo da psicose que não tem nenhum quê romântico, sendo mais para filme de suspense ou mesmo de terror e muito longe das comédias românticas inebriantes e acolhedoras.

Existem muitas formas de expor a necessidade de controle. Há aqueles que colocam tudo dentro de um quadrado e os que fogem daquilo, acionam o botão de pânico. O ciumento tem a ilusão de que pessoas e sentimentos são controláveis e sente um desespero absoluto quando o outro escapa pelos poros. A pessoa que tem predisposição para um tratamento psicológico vai processar o quanto é nocivo para o controlador e também para o controlado este tipo de funcionamento. É importante investigar, para a evolução do processo psicoterapêutico, o por quê da necessidade de tanto controle, quanto do medo de perder, ou de ser traído e até que ponto isso tudo não estaria diretamente ligado a uma baixa auto estima.

Na pesquisa sobre os sinais que circundam a dimensão das experiências daquele que está envolvido nas tramas do ciúme, seria interessante considerarmos o fato de que todo ato dessa ordem deve ser praticado por influencia do desejo. Isso leva a afirmar que o grau do desejo pelo o objeto, define a intensidade do ciúme.

Poderíamos estender essa reflexão propondo que o ciúme é originário do risco de perder para outra pessoa (ou coisa) algo que se deseja muito, e ainda que quanto mais se deseje o objeto maior será o ciúme envolvido. Essa experiência está incluída no desenvolvimento emocional saudável e naturalmente se complicará de forma patológica durante a vida adulta se não houver chances de uma boa elaboração. De inicio devem acontecer no relacionamento com os pais e irmão na primeira esfera social que é a familiar, e então se estenderão às relações externas.

Em seu pequeno texto ALGUNS MECANISMOS NEURÓTICOS NO CIÚME, NA PARANÓIA E NO HOMOSSEXUALISMO, que segundo Ernest Jones teria sido lido por Freud a um pequeno grupo de amigos nas Montanhas do Harz em setembro de 1921, afirma que “os exemplos de ciúme anormalmente intenso encontrados no trabalho analítico revelam-se como constituídos de três camadas. As três camadas ou graus do ciúme podem ser descritas como ciúme (1) competitivo ou normal, (2) projetado, e (3) delirante.”.

É necessário que se esteja atento ao nível de normalidade do ciúmes. Quando passa-se da medida ele é sufocante e repelente. Logo, atitudes que seriam para aproximar, acabam afastando e o controle torna-se ilusório. O ciúmes delirante é patológico.


Comentários

Sarah disse…
Belíssimo texto. Mas será que é possível sentir ciúmes de alguém/algo que nunca nos pertenceu?
Leila Viana disse…
Oi Sarah, sim, mesmo porque o pertencimento é uma ilusão e já que estamos dentro deste campo da ilusão serve até ciumes de quem(ou algo)que não nos "pertenceu".
Que coisa boa, minha querida amiga!

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