Amor verdadeiro ( Malévola)

Quem assistiu Malevóla? Quem assistiu provavelmente saiu deslumbrado do cinema, ora com a história, ora com Angelina Jolie que está perfeita no personagem. Eu saí inebriada com tudo e tratei logo de comprar o DVD porque tinha muito que trocar com meus pacientes, a grande moral da história em dois momentos cruciais.

O momento que mais me fez pensar e pensar e pensar foi quando ela se apaixona pelo humano e lhe dá um voto de confiança indo contra todas recomendações e avisos do seu povo de que eles não são confiáveis. Eles conseguem estabelecer toda uma relação linda e encantada. Até que a natureza humana venenosa fala mais alto e pelo poder, ele arranca as asas dela em um momento em que está vulnerável, dormindo em seu colo. A partir deste momento, quando se sente traída, a raiva, o ódio e todos os sentimentos ruins emergem do seu ser.

Neste momento, pensei: como o “outro” é capaz de despertar o que há de melhor e de pior dentro de nós. Vejo muitos relatos de traição, ou separação em consultório e em todos tem um discurso: “Eu não estava em mim, eu não era eu.” Isso de sentir suas asas cortadas podemos ver em relações amorosas, em relações de amizades, em relações familiares, em relações... Quem nunca teve um humano cruel que, sem dó nem piedade, cortou o que havia de mais precioso? 

Nós somos o que há de mais misterioso no universo. Acreditamos que nos conhecemos, mas há em nós uma força desconhecida, que surge em situações que teríamos certeza que não aguentaríamos, um sentimento obscuro que somos incapaz de assumir, ou um sentimento de compaixão infinita que faz com que perdoemos o imperdoável. Nunca sabemos quem somos por completo. Podemos esmiuçar, investigar e, às vezes de forma equivocada, achar que chegamos a uma conclusão. Mero engano. Passaremos a vida nos descobrindo, somos uma fonte inesgotável e desconhecida.

O segundo momento significante e surpreendente: Aurora não acorda com o beijo do príncipe. E aí vem toda a desconstrução do mito que os contos de fadas vêm incutindo nas crianças há séculos. Aurora conseguiu despertar em Malévola o amor verdadeiro, fez com que ela lembrasse que cada ser é único e não é porque um humano foi capaz de ser cruel e insensível que todos seriam iguais. Aurora despertou o que havia de melhor e mais puro em Malévola. Muito próximo a maternagem, ao aconchego, a amizade. Resgatou a confiança no mundo e fez com que ela despertasse em si a luz que teve um dia. O beijo da Malévola despertou Aurora.

Portanto, queridos, se alguém cortou suas asas, deixe seus monstros agirem, porque não é saudável aprisioná-los. Viva isso, abrace isso e entenda como uma parte de você, mas, quando a luz chegar novamente, abra a porta e nunca deixe de acreditar no amor. Ele é o nosso resgate e impede que nos percamos na nossa escuridão.


Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Desejo, sujeito da psicanálise e ser-humano

IN TREATMENTE (EM TERAPIA)

Desejo e sublimação