Frida
Assim que foi lançado no cinema, assisti Frida, não gostei, saí de lá frustrada porque não conseguiram transmitir nem um terço do tamanho sofrimento passado por ela. Anos depois, tive que encarar novamente o filme para participar de um debate promovido pela Intersecção Psicanalítica do Brasil, no auditório da Cultura Francesa em Brasília. Não sei o que mudou... vi tudo aquilo com outro olhar, talvez porque os livros estavam menos frescos na minha memória. Reafirmei ali o grande amor pela obra dela. Um dos atenuantes do filme foram as cores fortes, tão características do México, e os quadros lindíssimos retratados por ela. Aquelas cores retratam uma alegria inerente a Frida, mesmo com os dois acidentes da vida dela (como Frida mesma diz), o Bonde e Diego, sendo esse último o pior deles.
Cheguei a recusar a posição dela quando quis casar-se com Diego. Vi Frida, ali, no lugar da pessoa comum, na posição romântica de que o amor dela vai modificar o outro. Ele deixando bem claro ser o infiel que era, e ela disposta a aceitar e possivelmente transformá-lo. Acho até que ela conviveu bem com a relação aberta que eles viviam, só não pôde suportar quando ele ultrapassou os limites se relacionando com a irmã de Frida.
Vejo isso constantemente no dia a dia do outro, seja no consultório ou com pessoas próximas do meu convívio. A coisa da modificação do outro, tipo “comigo será diferente”. Esqueci, diante da minha não aceitação, que Frida era de carne e osso, ser humano como outro qualquer. Cresci ouvindo e assimilei muito bem quando minha mãe falava constantemente: “ninguém muda ninguém”. Mais tarde, reafirmei na psicanálise que a mudança tem que vir de nós para abrigar o outro ser com seus defeitos e qualidades, se estivermos dispostos a amar este outro por completo. Não que a mudança não exista, ela pode ser real e plena, mas não deve haver uma expectativa em cima disso, devemos nos fiar naquilo que depende de nós e não o que podemos (ou não) produzir em alguém. Tudo é uma questão de ponto de vista, de repente o que pra nós é defeito, na verdade para o outro é qualidade e o faz feliz, não precisa ser modificado.
Uma outra coisa que aprendi com a maturidade é a questão dos casais que a nossos olhos são infelizes. Na verdade, eles podem ser bem felizes dentro da neurose em que vivem, e precisam disso pra viver ou sobreviver.
Depois de ver esse filme pela segunda vez, entendi o amor de Frida por Diego. Ela sabia quem ele era quando se envolveu, sabia da infidelidade que era característica dele e ele não fazia a menor questão de parecer diferente, foi verbalmente declarado a ela antes do casamento. Frida Kahlo não seria Frida Kahlo sem Diego Rivera. Ele amava os quadros dela, sabia que com todo seu dom e competência não conseguiria nunca transmitir o que ela transmitia através da pintura. Ele pintava o concreto e ela o seu próprio intimo. Ele valorizava a mulher, a pintora, a personalidade. Quando ela estava no fim da vida, já com dedos amputados e a depressão tomando o lugar da sua tão admirável alegria, ele estendeu a mão e ressaltou a precisão dela na vida dele. Ela o repeliu achando que era um ato de piedade com a pessoa dela e não aceitava esse tipo de sentimento, mas ele deixou bem claro que a necessidade era dele de tê-la por perto.
Antes de tomarmos as dores de nossos amigos, filhos, ou seja lá quem for, devemos procurar entender e aceitar a escolha do outro. Diego ganhou alguns pontos comigo depois que fiz uma segunda leitura desse filme, uma leitura muito mais madura da posição dele na vida de Frida Kahlo. Na verdade, o grande amor de Frida não podia ser algo normal e comum, tinha que ser mesmo alguém como Diego Rivera. Nem eu, nem vc, nem qualquer outro pode recusar acreditar nesse amor. Afinal, ela é a grande protagonista da história, ela o aceitou como ele era, nada foi camuflado para iludi-la. Ela abriu a guarda da sua própria vida para que ele entrasse e de alguma forma a fizesse feliz.
Comentários
Sandro
Tenho orgulho do seu talento...
Você escolheu o caminho certo.
Adorei o texto!
Beijos,
Sueli Estrela
Eu tinha um colega de trabalho, um menino, que por trabalhar na mesma sala que eu, acompanhava alguns dos meus gostos. Músicas que eu eventualmente escutava ou imagens que escolhia pra colocar no meu blog.
Instigado com o meu gosto, ele me perguntou: "Ana, por que você gosta dessas coisas?" E eu: "Que coisas?" Ele: "Essas coisas estranhas. Músicas estranhas, artistas estranhos".
Eu respondi que gosto da diversidade. Gosto daquilo que tem algo mais. Não no sentido de ser mais inteligente ou mais criativo. O estranho é o que não conheço ainda, tem sempre um ar enigmático. É esquisito, até que se torne cotidiano, familiar, "normal".
Frida é estranha. Esquisita. Não é uma mulher que se encaixa em um padrão de beleza que insistem em nos fazer convencidos. Frida tem aqueles bigodinhos esquisitos. Usava roupas masculinas, teve relacionamentos homosexuais. E, veja só que paradoxo! Era escancaradamente uma mulher, com charme de mulher, dores de mulher, cores e desejos de mulher.
Não se sabe ao certo se casou-se e aceitou Diego, por submissão à paixão que sentia, ou porque também se sentia diferente em sua disposição para se relacionar. Se, apesar do ciúme, optara pela liberdade. E quem saberá?
Frida Kahlo é um ataque certeiro às tendências homogenizadoras que afetam os sujeitos modernos. É um recado às moças: Não sejam iguais. Sejam vocês. Com suas dores, suas deformações, suas histerias, suas formas tortas, magras, baixas, lisas, altas, cacheadas, fofas, gordas, simpáticas, cisudas, que sejam.
Frida Kahlo é estranhanhamente apaixonante...
Bjs,
Ana Cabral
Você sabe o quanto sou apaixonado por Frida e pelas suas obras coloridas e alegres. Acho que era para ela esquecer das dores da vida. Também fiquei com raiva do Diego, mas realmente a Frida sem Diego, não seria a Frida que tanto nos encanta e além do mais as pessoas só nos fazem o que permitimos.
Parabéns. Tenho muito orgulho de você.
Bjs
Luciana Viana