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Registros inconscientes

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Eu tenho uma profunda admiração pelo Freud, acredito que o motivo mais relevante foi ele ter trazido luz a teoria psicanalítica. Uma pessoa que enfrenta a sociedade da época para divulgar teorias tão avançadas merece o nosso respeito. Estendo também a minha admiração aos seus precursores que aprimoraram e defenderam tais teorias. Relendo sua obra cheguei a Inibições, sintomas e angustia . Sempre me apaixono pela forma didática como publicou seus escritos, acho tudo muito bem explicado. Resolvi passar aos leitores que me dão o prazer de ler meus textos, de forma bem acessível, uma visão resumida de uma teoria psicanalítica, “O retorno do recalcado”, que seria nada mais, nada menos, que o retorno com força dobrada de significantes jogados no campo do Inconsciente , resumindo a grosso modo. Na verdade Freud reconhece que não é o inventor do “recalque” * , mas seria este o pilar da psicanálise,o seu elemento mais essencial. Ao longo de nossa vida nos registramos os fatos de nossa históri...

BONECAS RUSSAS

U m filme que trata da busca amorosa, um assunto inerente ao ser humano. A grande maioria dos pacientes que passam no meu divã traz como foco da análise O AMOR. Seria esta a moral da história no filme? A busca incessante e infindável do amor? Quando achamos que aquele é o último tem sempre uma bonequinha dentro da outra para mostrar a continuidade, o inesperado, o novo. Normalmente observamos dois tipos de postura em relação ao amor, em uma delas o amor atual é vivido como se fosse o último e eterno, aquela coisa que transcende a vida, a grandeza do sentimento é tanta que achamos que não cabe nada além disso. Vive-se também como se fosse o primeiro, saboreando a novidade, o encantamento de todos os começos. X avier, o protagonista da história, é angustiado com o fato de escrever sobre amor, mas nunca viveu isso de forma verdadeira e duradoura. Como escrever sobre algo que não foi vivenciado? V ou me concentrar em três pontos do filme: 1º - O SOCIAL Xavier quer apresentar um...

PAI, MÃE, FILHOS...

> Outro dia acompanhei uma discussão no Orkut sobre a importância da tríade pai, mãe e filho na sociedade atual. A comunidade chama-se “psicanálise clinica”. A pessoa que abriu defendia o fato de que apesar dos valores da sociedade atual, nada substitui esta tríade fundamental para a construção psíquica saudável do ser. Ainda ressalta que um não consegue fazer o papel de dois e que o mito de PÃE é muito difícil de ser desempenhado de forma completa. Depoimento do Renato D’Martino: O mito do Pãe - Acumulo de função; o mito do Pãe A denominação “Pãe” é interessante e perigosa. Sugere onipotência (extremamente prejudicial como modelo de ser humano), um super-herói, alguém que na verdade não existe, pois deixa de viver sua própria vida em função do outro. Penso que a tarefa de cuidado dos filhos é sempre melhor sucedida quando feita em uma dupla, porém, em qualquer que seja a tentativa de dividir a pratica dessa tarefa, o afeto é um ingrediente indispensáve...

A BUSCA DO PRAZER

A luta constante com meus pacientes não é pela busca do prazer, mas onde este reside. Dependendo do grau de insatisfação, depressão, melancolia, fica difícil conceituar isso, enxergar, sentir. Até mesmo a baixa auto-estima leva a um boicote quanto a este “desfrute”.Muitos não se permitem e não se julgam merecedores desse tão almejado prazer. O alvo de prazer ou felicidade pode mudar muito de acordo com a situação, o momento. A nossa fonte de prazer de ontem pode não ser a mesma de hoje. Isso faz parte do amadurecimento, das mudanças de foco e, até mesmo, da prioridade das futilidades que nos permitimos desfrutar. Lendo o livro Manual do Hedonista, Dominando a esquecida arte do prazer , autor Michael Flocker , apreendi muitas coisas interessantes sobre o assunto. Flocker é enfático quando diz que o prazer não se limita a deitar em uma rede, não fazer nada mas “criar uma vida que seja ao mesmo tempo interessante e agradável” . Este prazer interessante e de qualidade não se trata de lux...

ANGUSTIA X FANTASIA

P or que algumas pessoas precisam da angústia para viver? É uma realidade que presencio na vida, no dia a dia, no consultório. Em um exemplo bem banal, podemos notar que o sofrimento é o que mantém audiência nas novelas, nos filmes. A mocinha e o vilão das novelas tem que criar uma situação tensa por mais de seis meses para segurar o público, a felicidade não prende, não mantém a fidelidade de quem assiste. A angustia é tão inerente ao ser que algumas pessoas resistem a terapia por não saber o que seria delas se aniquilassem esse sentimento. O que será de mim sem a minha depressão? Inacreditável, mas isso existe. Muitas não assumem. Algumas, quando vêem que algo está se resolvendo para diluir a angústia, não aparecem mais no consultório, somem ou dão uma desculpa banal para finalizar as sessões. Há o boicote também de dar pra trás quando tudo começa a dar certo. Isso tem a ver também com a autopunição, auto-estima baixa, não se achar merecedor. A felicidade não é um estado cons...

IN TREATMENTE (EM TERAPIA)

Quem acompanha o seriado americano “in treatment” vai entender o que estou falando. Para quem não acompanha, trata-se das sessões semanais de um psicoterapeuta e seus pacientes, tendo ainda sua própria terapia semanal e algumas cenas de sua vida pessoal. Cada dia da semana é destinado a uma paciente. No primeiro episódio temos uma noção da contratransferência com a Laura, uma paciente extremamente sedutora, que se apaixona pelo analista e tenta seduzi-lo para que este faça parte de mais uma de suas conquistas, sendo este o meu ponto de vista. Pela história de vida dela não consegui enxergar de outra forma. Como o casamento de Paul(o analista) vinha enfrentando uma crise, ele se deixou seduzir, não concretizando o ato devido à ética da sua profissão. Neste ponto ele entra em cena com Gina (sua terapeuta e mentora), expondo seus conflitos em relação a profissão e o que deve se abdicar da vida em prol desta. Neste momento vem à tona a humanidade do terapeuta, mesmo dia...

Singularidade plural do ser-humano

"Porque será que insisto em temas complexos com títulos esquisitos? Tem sempre um sujeito em mim gritando por uma luz que descortine o mosaico colorido dos meus significantes. A percepção confusa das infinitas representações simbólicas caoticamente costuradas numa translúcida teia de estruturas fugazes de aparência sólida como uma miragem, a me levar por uma existência sem fim, implora por alguma compreensão". Esse é o registro de um dos "meus sujeitos". Mas há outros: que desejam, que sentem, que sofrem, que agem, que tocam. Essa pluralidade de sujeitos me tornam um sujeito-sintoma singular . Um ser-humano singular . Em geral, somos singulares pela pluralidade que nos estrutura. Pelas afetos produzidos ao longo de toda nossa existência, pelas escolhas que fazemos e deixamos de fazer, pela multiplicidade do discurso do outro que atua de maneira recíproca entre os interlocutores envolvidos, pela interdependência de todos os fenônemos que percebemos. Mas isso pode dei...